ALGUNS APONTAMENTOS PARA PENSARMOS SOBRE A SUDEZ
Karoline Fonseca
Mas, se não ouvir não define fundamentalmente o ser
surdo, o que é que está em jogo, então, nesta afirmação?
(BENVENUTO, 2006, p.227)
Para
começar a falar sobre surdez, considero imprescindível levantar questões
relacionadas a pré-conceitos criados e reproduzidos pela sociedade ao longo dos
tempos.
Não
seria senso comum dizer que em nossas sociedades ocidentais “o diferente”, ou
seja, tudo e todos que fogem a um padrão pré-estabelecido como norma é
ignorado, excluído ou precisa ser normatizado para ser incluído.
Dessa
forma, desrespeitamos por completo a nossa própria condição humana, ou seja, a
subjetividade que nos diferencia uns dos outros.
Com
a surdez não é diferente. O sujeito surdo não é reconhecido naquilo que ele
reivindica, ou seja, um grupo detentor de uma língua própria (língua de sinais)
e, portanto, pertencente a uma cultura específica – uma cultura surda. Mesmo
após inúmeros movimentos de pessoas surdas para o reconhecimento dessa cultura
e de sua língua, o que se evidencia por boa parte da sociedade é o
desconhecimento dessa luta, colocando a surdez como uma “deficiência”. Nesse
sentido o surdo é estigmatizado, sendo tratado como um ser que nunca vai chegar
a um ideal – o Ideal – pré-estabelecido
por um mundo que determina o que é ou não é normal, negando o direito de livre
existir.
Um
dos grandes problemas da sociedade é que:
[…] o surdo é visto como portador de uma deficiência
física, que precisa de recursos ou intervenções cirúrgicas para se tornar
“normal” e fazer parte do grupo majoritário na sociedade em que vive. Ver a
surdez como um problema está diretamente relacionado à visão patológica.
(GESSER, AUDREI, 1971, p.63)
É
exatamente isso que precisa ser mudado. Ver o sujeito “surdo” como alguém
deficiente, incapaz, incompleto, impossibilitado, “um outro diferente entre nós
outros”, só faz com que as diferenças nos separem em vez de potencializarem a
vida com a possibilidade de encontros entre diferenças que produzam coisas
novas.
É
preciso olhar para o surdo como um sujeito que possui uma diferença cultural,
que possui uma língua diferente e uma forma distinta de ver e ouvir o mundo.
Quando essa língua se torna visível, a surdez passa a ser vista como uma diferença
sócio-cultural, e não como uma deficiência.
Outra
questão que deve ser levada em conta é que existem inúmeros casos (relatos) em
que quando um sujeito surdo vive numa família onde todos são surdos, este tem
uma vida como a de qualquer outro do seu grupo social. Sua condição surda
sequer é posta em questão. A visão da surdez como uma deficiência é construída
no meio social mais amplo, quando o sujeito é inserido em outros espaços, como
a escola, por exemplo. O que só vai acontecer tempos depois. É nesse contato
com a diversidade social que, contraditoriamente, surge a imposição de ideais e
padrões normativos. Por outro lado, porém, um sujeito surdo que nasce no “meio
ouvinte”, começa desde muito cedo a experimentar esses mecanismos de
normatização, sendo submetido a medicações, operações, treinos cansativos e
repetitivos em busca de um padrão que o aproxime do “ser normal”. Esse sujeito,
por sua vez, constrói desde muito cedo uma visão de si como deficiente e, na
maioria dos casos, acaba se acomodando a essa situação e aceitando seu
“fracasso” social.
Como
já dito anteriormente, “a visão da surdez como uma deficiência é construída no
meio social mais amplo, quando o sujeito é inserido em outros espaços, como a
escola”, que por sua vez, insiste em trabalhar com padrões normativos e uma padronização
do tempo no que diz respeito ao aprendizado, sendo, portanto, a maior produtora
de divisões e classificações. Diante dessas rotulações, surge então a
necessidade de criar formas de trabalhar com aqueles que, não se adéquam ao
modelo educacional padronizado por essa instituição.
Daí a criação das...
[…] “Necessidades educativas especiais”, voz monótona
que inclui num único processo de alterização[1] tanto aos
membros de minorias étnicas e culturais, quanto a meninos e meninas de rua,
crianças superdotadas, grupos desfavorecidos ou marginalizados, populações
nômades e aqueles com condições físicas, intelectuais, sociais, emocionais e
sensoriais diferenciadas. (BRASIL, 1999, p.23)
Assim, essa necessidade é segundo Carlos Skliar:
[…] na atual forma curricular brasileira, alguma coisa
parecida a “atenção à diversidade” na reforma espanhola da década anterior,
aonde a diversidade é pensada e produzida como:
a) um problema;
b) um problema considerado de recente data;
c) um problema que começa no outro, na sua existência,
ou melhor dito, na sua experiência de ser outro;
d) o mesmo problema que aquele da heterogeneidade já
antes indesejável;
e) um problema cuja retórica reformista anula o
problema: todos temos necessidades educativas especiais – i.e. todos somos
diversos;
f) um problema educativo que parece de todos mas que
acaba se focalizando exclusivamente nos sujeitos considerados problemáticos;
g) um problema do outro, cuja única resposta possível
da nossa parte é a nossa tolerância, o nosso respeito, a nossa aceitação, o
nosso reconhecimento; (SKLIAR, 1971, p.42)
Na sociedade há,
ainda
[…] a imagem de um outro multicultural. […] que ocupa
uma especialidade de certo modo ancorada na política da mesmice – de
pertencimento a uma comunidade que deve estar sempre bem ordenada e
solidificada, a um único modus vivendi – e quem sabe, cultural – mas
sempre de equivalência.
Porém, quando se
pensa em multiculturalidade dessa forma, mais uma vez a subjetividade desse
outro é desrespeitada, uma vez que nenhuma cultura é fixa e que nem todos os
surdos querem efetivamente participar dessa comunidade.
Todos nós somos perpassados e contaminados pelas
culturas com as quais estamos em contato. Pensar o surdo no singular, com uma
identidade e uma cultura surda, é apagar a diversidade e o
multiculturalismo que distingue o surdo negro da surda mulher, do surdo cego,
do surdo índio, do surdo cadeirante, do surdo homossexual, do surdo oralizado,
do surdo de lares ouvintes,do surdo de lares surdos, do surdo gaúcho, do surdo
paulista, do surdo de zonas rurais… (SKLIAR, 1998 in: GESSER,1971)
Concluindo, minha
intenção com esses escritos se propôs mostrar que, além de entender que o
sujeito surdo possui sua cultura e sua língua, não podemos esquecer que ele,
também, tem sua subjetividade, e que sua condição humana não se reduz a sua
surdez, podendo até mesmo não querer estar numa “comunidade surda”, ou se
sentindo mais a vontade com um grupo de “ouvintes”. Quando passamos a entender
que o outro, assim como nós, é singular, torna-se mais fácil de se conviver em
condições igualitárias.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
GESSER, Audrei,– LIBRAS? : Que língua é essa? :
crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da realidade surda, Parábola
Editorial, São Paulo, 1971
LOPES, Maura Corcini. Surdez & educação. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2011.
SKLIAR, Carlos. A educação e a pergunta pelos
Outros: diferença, alteridade, diversidade e os outros "outros". Ponto de
Vista, Florianópolis, n.05, p. 37-49, 2003
[1] Alterização: processo
de alterização significa colocar a ênfase na produção do outro como alteridade
e também de duvidar, ao mesmo tempo, que esse outro exista “normalmente
A
SUBJETIVIDADE NO MUNDO CONTEMPORÂNEO NA PERSPECTIVA DA PSICANALISE
Laiz Gouvêa Perez
Lê-se
no dicionário Aurélio: Subjetividade (SF)
Qualidade ou caráter de subjetivo:
Subjetivo: Do latim subjetivus adjetivo relativo a sujeito,
existente no sujeito, individual, pessoal, particular, passado unicamente no
espírito de uma pessoa; Filos. Válido
para um só sujeito; Filos. Que
pertence unicamente ao pensamento humano em [1]oposição ao mundo físico e
à natureza.
Pensar
a subjetividade do ponto de vista psicanalítico implica o esclarecimento de
certos limites teóricos que se não forem explicados deixam de ter sentido para
a própria psicanálise. A questão da subjetividade ganha sentido apenas enquanto
referenciada ao inconsciente. É esse referencial que marca a diferença da
questão para a filosofia e psicologia, por exemplo. Para a psicanálise, é somente
a partir do lugar do outro que se pode falar em sujeito e subjetividade. Cada
subjetividade, considerada em si mesma, é incomunicável. Somente o que permite
a comunicação entre elas é o inconsciente, com o papel de articular as
subjetividades individuais.
Segundo
Lacan, “é no outro e pelo outro que a criança aprende a se reconhecer, que seu desejo,
tal como seu corpo, não é vivido inicialmente como seu, mas projetado no outro.
É exatamente através do simbólico e da linguagem que o desejo vai entrar numa
relação de reconhecimento recíproco na troca simbólica do eu e tu” (LACAN, 1979). Enquanto para a psicologia a subjetividade
é unificada, identificada com a consciência e pertencente a um sujeito
psicofísico, a subjetividade psicanalítica é constituída fundamentalmente pelo
inconsciente.
Em
1921, Freud afirmou que não existe separação entre psicologia individual e psicologia
coletiva. No texto “Psicologia de grupo e psicanálise do eu” ele diz:
Algo mais está
invariavelmente envolvido na vida mental do individuo, como um modelo, um
objeto, tem auxiliar um oponente de maneira que, desde o começo, a psicologia
individual nesse sentido ampliado, mas inteiramente justificável das palavras,
é ao mesmo tempo, também psicologia social. (FREUD, 1921. pg.91)
Essa
relação com o social vai se constituir singularmente no interior de cada pessoa
sob forma de representações, sob a forma de um conjunto de relações
interpessoais (interpsíquicas, dirá o psicanalista) que trazem consigo as
diferenças, as contradições observadas na própria vida real, decorrentes da
diversidade de significados percebidos nas relações: ora é um modelo, ora é um
auxiliar, ora um objeto, ora um componente. Reproduzem-se dessa forma,
interiormente, várias formas de domínio, poder, submissão, bem como as
possibilidades de vínculos e colaboração. A psicanálise permite observar de que
maneira essas representações ideológicas contraditórias e conflitivas
constituem a interioridade e o caráter subjetivo de cada pessoa.
Somos
cada vez mais bombardeados em nosso cotidiano por notícias de cenas de
violência, praticadas de maneira fria nos variados contextos sociais, a vida
humana parece ter perdido o valor. De acordo com minhas observações da vida
contemporânea os sintomas e as queixas apresentados pelas pessoas estão se
distanciando cada vez mais dos encontrados por Freud e outros estudiosos de sua
época. Sintomas esses que serviram de base para o desenvolvimento da teoria
psicanalítica. As pessoas exprimem sensações de “vazio interior”, falta de
sentido na vida, demonstrando um empobrecimento[2] do pensamento, uma solidão
crescente que se mescla com períodos de depressão, tédio e pânico. Os
comportamentos encontram-se basicamente dissociados de suas percepções dos
sentimentos, gerando mal estar seja ele consciente ou inconsciente nas relações
com os demais. Parece que para assegurar sua fragilidade interna, o individuo
deve adquirir dinheiro, poder e êxito.
Vivemos
em uma cultura cujas características preponderantes no âmbito individual, se
tornam narcísicas e parecem estar sendo frequentemente mais enfatizadas. A
procura do poder e do sucesso norteiam o comportamento social e pelo que podemos
observar atualmente, “a qualquer preço”. Quando se diz “em levar vantagem em
tudo” a mensagem é a de “o outro não ser importante diante dos meus desejos”,
tal mensagem só pode expressar a ausência de limites e de respeito que já se
encontrava no inconsciente social. O “ser” então, passa a ser substituído pelo
“ter”.
Os anúncios de televisão, as
postagens na internet apresentam a todo tempo imagens daquilo que podemos ser e
o que poderia nos dar felicidade e associam ao uso ou compra de determinados produtos.
Uma interminável venda de ilusões que intensifica paixões supérfluas que levam a
uma não aceitação do ser humano com suas dificuldades e limites. As mulheres são
lindas e perfeitas; os homens charmosos; os carros e ambientes paradisíacos
como em um sonho. As aparências parecem prevalecer sobre a realidade.
A
beleza estetizada em modelos pré-concebidos tornou-se uma escravidão para ambos
os sexos, encontramos academias de ginástica repletas de pessoas que utilizam o
corpo de modo dissociado dos sentimentos, numa incessante procura por moldá-lo
aos padrões estabelecidos como desejáveis. Malhando, malhando e malhando,
fazendo dietas em um movimento dissociado do contato profundo com suas
necessidades e percepções internas, e se sua imagem externa não se enquadrar
nos “modelos” propostos pela cultura surgem sentimentos de desvalorização como
se o ser humano tivesse que ser reduzido a uma mera casca sem conteúdos. O
culto à juventude e a saúde (corpo saudável) numa tentativa de melhorar a performance, a imagem, a aparência, a
beleza aparente, o sucesso; parecem ser os fatores norteadores do comportamento
social contemporâneo.
Tais
componentes relacionam-se com características narcisistas individuais: o
engrandecimento da auto-imagem e a dissociação de sentimentos que parecem ter
sido varridos de nossas vidas, aparecem relacionamentos cada vez mais fugazes
de envolvimento superficial, podendo gerar mais facilmente decepções e
sofrimento. Mediante esse quadro, podemos dizer que as subjetividades têm sido
entendidas e utilizadas na prática como um exercício de indivíduos separados,
mais do que como uma possibilidade de construção de laços sociais.
A
referência do corpo bem modelado, a falta de projetos coletivos e o uso da
tecnologia, substituindo uma interação social (como acontece com os vídeos
games para as crianças) são algumas das barreiras para o estabelecimento de
laços, comumente encontradas na atualidade.
Não
se trata de uma crítica ao corpo, à privacidade ou a tecnologia, mas, uma
crítica a essas aproximações rígidas como se fossem a única forma de lidar com
a vida ou se sentir parte dela.
A
psicanálise entende ser essa, uma forma de negar conflitos tentando ler a
realidade a partir de uma relação narcísica por excelência. Pela visão
psicanalítica é uma forma de negar o outro, de negar a sociedade e promover seu
mal estar.
De
fato, nas ultimas décadas o mundo conheceu enormes mudanças políticas,
econômicas e culturais que vieram com o complexo fenômeno da globalização.
Junto com a produção e circulação de bens sem precedentes, gerou-se uma
sociedade de excluídos, com suas manifestações depressivas e/ou agressivas
conforme o sentimento de impotência ou de revolta vivenciadas por cada um.
Derivado
das ciências o desenvolvimento da psicofarmacologia promete por meio da sedação
o fim da inquietação das subjetividades ou como diz Birman[3] “para controlar nossas
intensidades, nos transformando em mais produtivos e contidos”. Assim,
oferecendo, mais uma vez, através do consumo uma proposta de sedação para o
nosso mal estar interno.
Desde o final do século XX o mundo
ocidental viveu um processo de reevangelização.
O crescimento da literatura de auto ajuda é um exemplo vivo disso, uma modalidade
de religiosidade. Birman² nos diz que houve um enorme incremento social do
discurso fundamentalista como um referencial salvador capaz de oferecer saídas
para nossos impasses. Vivemos em uma sociedade de risco, sem proteção,
assustados, pobres de pensamentos e linguagem, instáveis emocionalmente. Somos
sujeitos colocados na condição radical de desamparo, condicionados apenas a sobreviver
às adversidades de cada dia frente as dificuldades encontradas nas suas
diversas situações.
Para
a perspectiva psicanalítica o sujeito do inconsciente é um sujeito marcado pela
singularidade. A psicanálise é por definição anti universalista, sendo assim,
não está no campo da salvação (já que não é religião) e nem no campo da cura. A
psicanálise lida por excelência, com um objeto que Birman² chama de mal estar
na civilização, essa questão do desamparo nada mais é que o mal estar da
civilização. Freud faz a seguinte afirmação em “O mal estar na civilização”:
Devemos constatar que não existe
formula universal para a aquisição disso que o homem mais deseja, que é a
felicidade humana, porque a felicidade humana é alguma
coisa de caráter singular. (FREUD, 1930, p.16)
Freud
se recusa a apontar saídas ou levantar-se como um profeta diante de seus
semelhantes. Cada um terá que encontrar sua própria salvação para enfrentar a dureza
da vida. A crise contemporânea, seja através de uma aproximação teórica ou
prática, deve ser o solo fértil para a criação e novas produções em um tempo de
reflexão e não de alienação ou fuga.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
BARROS, R. Os afetos na psicanálise.
In: Cadernos do tempo psicanalítico. Rio de Janeiro: SPID,1999, volume 4.
BIRMAN, Joel. Novas formas
de subjetivações. Entrevista com Joel Birman. 48’'32". Disponível em:
. Acesso em fevereiro de
2016.
DI MATTEO, Vincenzo.
Subjetividade e cultura em Freud: ressonâncias no mal-estar contemporâneo. In:
Discurso. Revista do Departamento de Filosofia da USP (193-241). N 36. 2006
FERREIRA, Aurélio Buarque de
Holanda. Dicionário da língua portuguesa. 5. ed. Curitiba: Positivo, 2010. 2222
p. ISBN 978-85-385-4198-1.
FREUD, Sigmund. Freud
(1930-1936): O mal-estar na civilização e outros textos. São Paulo: Companhia
das Letras, 2010.
FREUD, Sigmund. Psicologia de grupo e a análise do
ego (1921). Rio de Janeiro: Imago, 1976. (Edição Standard Brasileira da Obras
Psicológicas Completas de Sigmund Freud).
KEHL, Maria Rita. Sobre
Ética e Psicanálise. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
LAPLANCHE, J; PONTALIS, J.
B. Vocabulário da Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
[1]Como adjetivo é errado para exprimir o
conjunto dos conteúdos não presentes no campo efetivo da consciência. No
sentido tópico inconsciente designa um dos sistemas definidos por Freud no
quadro da sua primeira teoria do aparelho psíquico. É constituído por conteúdos
recalcados aos quais foi recusado o acesso ao sistema pré-consciente-consciente
pela ação do recalque. (LAPLANCHE, J; PONTALIS, J. B. p.235)
[3] "Joel Birman-Novas Formas de
Subjetivações”, vídeo youtube,
48:42, postado por "Julian Neto", Outubro 31,
2013, https://www.youtube.com/watch?v=ov9CKqKiAeE
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O FILME:
VERONIKA DECIDE MORRER
Marli de Souza Alves
Vida louca vida
Vida breve
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida louca vida
Vida imensa
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa
Cazuza
Decisão
- do latim decisione - ação ou efeito de
decidir; coragem; resolução ou sentença após discussão ou exame prévio. (FERNANDES,
1999)
O
título do filme, me fez pensar numa Veronika corajosa, que realizou um exame prévio antes de tomar sua decisão: sim ou não? Essa talvez seja uma daquelas questões que
renderá muitas discussões antes de sentenciarmos
a protagonista.
O
filme conta a história de Verônica, uma mulher jovem, bonita e bem sucedida
profissionalmente, com uma vida aparentemente tranquila, mas que para ela era uma vida sem sentido, repleta de frustrações,
inseguranças, angústias e incertezas, o que a leva a decisão de tirar sua
própria vida.
Quando
pensamos em suicídio tendemos a sentenciar
esse ato como uma desistência da vida, por outro lado existe a
possibilidade desta decisão estar relacionada a um sentimento de que a vida
desistiu daquele que resolve cometê-lo. Diante dessas considerações o suicídio
me leva a pensar em questões contraditórias, como outra que me ocorre ao
realizar essa escrita: será um ato de coragem ou de covardia acabar com a
própria vida?
Morrer voluntariamente
pressupõe que se reconheceu, ainda que instintivamente, o caráter irrisório
desse hábito, a ausência de qualquer razão profunda de viver, o caráter
insensato dessa agitação cotidiana e a inutilidade do sofrimento. (CAMUS, O
mito de Sísifo, s/d[1].)
A diretora do filme, Emily Young, utiliza com muita freqüência focos
e estratégias de iluminação para mostrar as expressões de seus personagens, como
tentativa de provocar uma visão alteritária de como eles vêem do mundo, para
isso ela prioriza as imagens estabilizadas e sempre bem focalizadas em
contraste com. as cenas mais amplas que são em sua maioria escuras, criando uma
sensação de que aqueles personagens realmente estão sem iluminação no seu
caminho. Mesmo que o mundo lhes impute um
eterno caminhar como nos aponta Bauman (1999):
A modernidade é o que é – uma
obsessiva marcha adiante – não porque queira mais, mas porque nunca consegue o
bastante; não porque se torne mais ambiciosa e aventureira, mas porque suas
aventuras são mais amargas e suas ambições frustradas. A marcha deve seguir
adiante porque qualquer ponto de chegada não passa de uma estação temporária.
Nenhum lugar é privilegiado, nenhum melhor do que outro, como também a partir
de nenhum lugar o horizonte é mais próximo do que de qualquer outro. É por isso
que a agitação e perturbação são vividas como uma marcha em frente; (p. 18).
Nas
primeiras cenas, sob a perspectiva de Veronika vemos imagens de várias pessoas
na cidade, aparentemente individualizadas, cada qual mergulhada em si mesmo,
sem preocupação pelo que acontece ao seu redor, como por exemplo, usando o
celular. Atualmente as pessoas optam por se comunicar virtualmente, através de
recursos eletrônicos, quando a vida deveria se dar muito mais por relações interpessoais,
simplesmente olhar ao seu redor e/ou conversar presencialmente. E isso é tão
comumente aceito, que poucos ousam confessar que sentem falta de um olho no
olho, de encontros em que a atenção entre os participantes não esteja dividida
sempre pelo smartphone e seus aplicativos. A cena nos leva a refletir sobre as
relações humanas no mundo contemporâneo.
Como observou Walter Benjamin, a
tormenta impele os caminhantes de forma irresistível para o futuro ao qual dão
as costas, enquanto a pilha de detritos diante deles cresce até os céus. “A
essa tormenta chamamos progresso”. Num exame mais detido, a esperança de
chegada revela-se uma ânsia de escapar. No tempo linear da modernidade, só o
ponto de partida é fixado: e é o movimento irrefreável desse ponto que arruma a
existência insatisfeita dentro de uma linha de tempo histórico. O que aponta
uma direção para essa linha não é a antecipação de uma nova alegria, mas a
certeza dos horrores passados – o sofrimento de ontem, não a felicidade de
amanhã. Quanto ao dia de hoje... vira passado antes que o sol se ponha. O tempo
linear da modernidade estica-se entre o passado que não pode durar e o futuro
que não pode ser. Não há lugar para o meio-termo. Á medida que flui o tempo se
achata num mar de miséria, de modo que o ponteiro pode flutuar. (BAUMAN, 1999,
p. 18).
São
muitos os pensamentos dela, entre eles os de que: “pessoas tomam remédios e
ficam muito bem”, “pessoas normais nunca dão trabalho”, “se um cara gentil
pedi-la em casamento, os pais ficarão felizes”. Ela pensa bastante nestas
questões, no que a sociedade espera dela, no que os pais esperam dela e
desconsidera suas vontades, seus próprios desejos.
Veronika
analisa sobre “o que ela deveria fazer” ou “o que esperam dela”, essa idéia de
ter que atender as necessidades que lhes são impostas lhe atormenta e vive o
incômodo impasse de ter que fazer escolhas que não a fará feliz “fazendo o que
ela deveria fazer”.
Ela
está desacreditada no casamento e imagina, enquanto ingere, os comprimidos, o
roteiro que é imposto a boa parte das mulheres; “casar, engravidar, criar
filhos, pagar contas, ser traída e aceitar, e no final tentar se realizar nos
filhos”.
Enquanto
está sob efeito da grande quantidade de remédios ingeridos, ela tenta redigir
uma carta, na qual sua primeira preocupação é tirar a culpa dos pais, depois vê
um anuncio que diz “o verde é o novo preto”, e é despertada a escrever sobre o
porquê das pessoas não verem as coisas como ela acredita que elas sejam: “preferi
me matar a participar do mundo em que vivemos. Esse não é o mundo real.”
[...] a modernidade é uma era de ordem
artificial e de grandiosos projetos societários, a era dos planejadores,
visionários e, de forma mais geral, “jardineiros” que tratam a sociedade como
um torrão virgem de terra a ser planejado de forma especializada e então
cultivado e cuidado para se manter dentro da forma planejada. Não há limite
para a ambição e a autoconfiança. Com efeito, pelas lentes do poder moderno, a
“humanidade” parece tão onipotente e seus membros individuais tão
“incompletos”, ineptos, submissos e tão necessitados de melhoria, que tratar as
pessoas como plantas a serem podadas (ou arrancadas se necessário) ou gado a
ser engordado não parece ser uma fantasia, nem moralmente odioso. (BAUMAN,
1998/1, p. 138).
Verônica
então é levada ao hospital e é diagnosticada com um quadro de infarto que
provocou um aneurisma sem possibilidade de cura. Sendo informada que tem poucos
dias de vida, ela é internada em uma clínica Psiquiátrica.
Dentre
os pacientes da clínica encontra-se a mais antiga, uma advogada que perdeu o
emprego e entrou em forte depressão e Edward, um paciente que não fala desde
que sofreu um acidente em que sua namorada faleceu, ele é consumido pela culpa.
Interessante abordar também o tema culpa, visto que vivemos numa sociedade que
funciona sob uma culpabilização que nos leva a repressão de desejos. Nesse
contexto, Edward chama atenção de Veronika.
Destaco
a preocupação da protagonista em agradar aos pais. Muitos de nós crescemos com
essa pressão atuando de forma muito negativa em nossas vidas, por vezes
enfraquecendo nossas vontades, retirando de nós o direito de dispormos de nós
mesmo. Mesmo que o objetivo de muitos pais esteja relacionado ao cuidado, eles
acabam sufocando os filhos, e nem todos conseguem lidar com isso de maneira
tranquila, como no caso de Veronika. Na conversa com o médico na clínica, a mãe
questiona: “Veronika sempre foi boa aluna, teve bons empregos... com vai fazer
para ela voltar ao normal?”
O
normal para essa mãe seria um padrão que ela criou, e que a filha se mostrou
diferente desse padrão criado por ela. Lembrei-me da aula em que a Professora
de psicologia, Dagmar de Melo Silva, cita que o que nos torna mais humano são
nossas diferenças e não nossas semelhanças. Nas relações é preciso reconhecer o
outro em sua legitimidade, na sua condição singular, exercitar relações de alteridade,
e é isso que os pais de Veronika e tantos outros pais precisariam compreender: olhar,
tentando perceber o que a filha sente. Nossa sociedade nos cobra que sejamos
constantemente felizes ou seremos fracassados.
Para revelar o potencial emancipatório
da contingência como destino, não bastaria evitar a humilhação dos outros. É
preciso também respeitá-los – e respeitá-los precisamente na sua alteridade,
nas suas preferências, no seu direito de ter preferências. É preciso honrar a
alteridade no outro, a estranheza no estranho, lembrando – com Edmond Jabès –
que “o único é universal”, que ser diferente é que nos faz semelhantes uns aos
outros e que eu só posso respeitar a minha própria diferença respeitando a
diferença do outro. (BAUMAN, 1999, p. 249).
Os
pais pensavam que se a filha estudasse em uma escola tradicional e conseguisse
um bom emprego, ela seria feliz, e era isso que eles queriam para a filha, mas
esqueceram de lhe perguntar se era isso que ela queria. Na despedida a mãe
mostra-se decepcionada com a colocação do médico de que era importante que elas
conversassem. Quando o pai abraça a filha percebe-se o relacionamento distante
entre pai e filha e, principalmente entre mãe e filha.
Logo
nos primeiros momentos da internação, Veronika sente-se ofegante, tem
pensamentos constantes de suicídio, tentando inclusive roubar remédios para uma
nova tentativa, que não deu certo. Ela então começa a perceber que não pode
controlar a morte.
Passado
poucos dias, Veronika em conversa com o médico diz que o odeia, que odeia seus
pais que a mantém ali, que odeia os colegas do trabalho que se consideram
melhores por ganharem bem e que odeia os zumbis do metrô. Essa colocação mostra
as coisas que a incomodam, coisas que ela não entende, que não aceita, e que
somadas a outras questões, a fazem querer deixar de viver, mas também mostra
que ela começa a sentir vontade de expor seus sentimentos.
Paralelo
a trama principal acontece diálogos entre a paciente mais antiga e o médico. Essa
questiona o porquê dele estar deixando Veronika e Edward se aproximarem, já que
ela está prestes a morrer. Na cena do primeiro contato físico entre Ed e Veronika:
ele pega no punho dela.
Há
uma aula de meditação na clínica, que leva Veronika a pensar, “ou ela controla
a mente, ou a mente a controla”. O verdadeiro eu é quem ela é e não quem os
outros acham que ela é. Veronika se aproxima do piano, começa a tocá-lo, e com
Edward a observando se despe parcialmente, tocando com intensidade máxima e
chegando ao êxtase. A partir dessa experiência ela confessa ao médico que
descobriu que tinha que viver.
Educados a viver na necessidade,
descobrimo-nos a viver em contingência. E, no entanto, fadados a viver na
contingência, podemos, como sugere Heller, fazer “uma tentativa de transformá-la
em nosso destino”. Transformamos algo em destino ao abraçar nossa sina: por um
ato de escolha e a vontade de permanecer leal à opção feita. Abandonar o
vocabulário parasitário de esperança, na (ou indeterminação à) universalidade,
certeza e transparência é a primeira escolha a ser feita, o primeiro passo no
caminho da emancipação. Não podemos mais esquecer a contingência; (BAUMAN,
1999, p. 247).
Uma
cena interessante é quando o médico diz a Veronika: “Hoje muita gente substitui
quase todas as suas emoções pelo medo. Quando todos têm sonhos, mas só alguns
conseguem realizar, isso torna o resto de nós covardes. Se todos realizassem
seus sonhos esse lugar estaria vazio.”
Isso
mostra como o indivíduo se sente cobrado a cumprir o papel de realizador,
imposto por uma sociedade que parece reconhecer só os “bem sucedidos”. Quando
não nos sentimos realizados muitas vezes nos colocamos, em isolamento do resto
do mundo.
A
advogada, paciente mais antiga, é um exemplo de “subjetividade roubada”, ela
questiona onde estará sua alma, pois ela percebe que a perdeu para o emprego, a
casa e o marido que não teve coragem de largar. Ela se privou de seus desejos
para atender expectativas que não eram delas, por isso se sente sem alma.
A civilização se constrói sobre uma
renúncia ao instinto”. Especialmente – assim Freud – nos diz a civilização
(leia-se: a modernidade) “impõe grandes sacrifícios” à sexualidade e
agressividade do homem. “O anseio de liberdade, portanto, é dirigido contra a
civilização como um todo”. [...]. A civilização – a ordem imposta a uma
humanidade naturalmente desordenada – é um compromisso, uma troca continuamente
reclamada e para sempre instigada a renegociar. O princípio de prazer está aí
reduzido à medida do princípio de realidade e as normas compreendem essa
realidade que é medida do realista. “O homem civilizado trocou um quinhão de
suas possibilidades de felicidade por um quinhão de segurança. (BAUMAN, 1998,
p. 08).
Edward
inesperadamente volta a falar, surpreendendo a todos com a frase: quero ir
embora, e quando Veronika se aproxima ele diz para ela que a considera importante
para ele. Logo em seguida os dois conseguem ir embora da clínica, mesmo que
observados de longe pelo médico.
Perto
do final do filme Edward e Veronika estão num banco sentados e de repente ela
parece desfalecer, desesperando Edward, no entanto logo ela acorda. Em cena
paralela, aparece o médico dizendo que pretendia contar a Veronika que ela
estava curada, toda aquela história de aneurisma não passava de uma grande
mentira, mas ele achou que não seria
necessário contar, pois, a maioria das pessoas que tentam suicídio repete a
tentativa, então ele usou o único remédio que tinha: a consciência do valor da
vida. Ao desconhecer a mentira sobre sua doença, ela iria considerar cada dia
um milagre.
Ficha
técnica do filme:
Título
original: Veronika decides to die
Título
no Brasil: Veronika decide morrer
Gênero: Drama
Direção: Emily Young
Roteiro: Larry Gross, Roberta Hanley
Trilha
Sonora: Murray Gold
Ano de
lançamento: 2008
Estréia no
Brasil: 21/08/2009
País de
origem: USA
Duração: 103 min.
Estúdio: Das Films / Future Films / Muse
Productions / PalmStar Entertainment / Velvet Steamroller Entertainment
Classificação: 14 anos
Informação
complementar: Baseado no livro de Paulo Coelho
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Disponível em:
.
Consultado em 06/03/2016.
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e Ambivalência. Tradução Marcos Penchel. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1999
BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da
pós-modernidade. Tradução Mauro Gama e Claudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar Ed., 1998a.
FERNANDES, Francisco. Super dicionário
da Língua Portuguesa. São Paulo, Globo Ed., 1999.
[1] http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/clubedeleituras/upload/e_livros/clle000131.pdf
ALTERIDADE:
Hugo Maggessi
Alteridade? A que se refere esse conceito? Que sentidos estamos dando a
esta palavra no mundo contemporâneo? Será que estamos interagindo e
interdependendo do outro para viver em sociedade como propõe o significado
assumido pelo termo em nossos dicionários?
A perspectiva de um eu individual, não é uma condição cristalizada. Para
que possamos existir como indivíduos, é necessário que haja a relação com o
outro. Isso é básico e fundamental. Dessa forma, uma “simples” palavra, define
a condição imprescindível para que o homem tenha podido sobreviver até os dias
de hoje; pois é a alteridade que nos permite e possibilita viver em comunidade.
Foi com o surgimento de uma linguagem comunicativa que as pessoas passaram
a se comunicar, vivendo juntos se protegendo mutuamente das intempéries, do
perigo dos animais selvagens e, principalmente, se organizando em sociedade.
Portanto a linguagem se tornou instrumento
indispensável para o processo de hominização. Através dela podemos falar,
ouvir, dialogar, trocar, aceder, respeitar, se colocar no lugar do outro. Estes
foram os principais fatores que permitiram o nosso protagonismo, nossa
ascendência no mundo terreno.
A teoria dos
processos de civilização proposta por Elias baseia-se na defesa de que, toda e
qualquer transformação ocorrida na estrutura da personalidade do ser individual
(psicogênese), produz uma série de transformações na estrutura social em que o
indivíduo está inserido. Da mesma maneira, as diversas transformações que
ocorrem constantemente nas estruturas das sociedades (sociogênese),
especialmente nas relações sociais, produzem alterações nas estruturas de
personalidades dos seres individuais que a compõem. (BRANDÃO, 2000, pp.10-11)
Segundo Nobert Elias (2006): “[...] os seres humanos,
em virtude de sua interdependência fundamental uns dos outros, agrupam-se
sempre na forma de figurações específicas” (p.26). Assim, o sociólogo alemão
nos conduz as imagens metafóricas da dança para exemplificar sua tese;
As mesmas
configurações podem certamente ser dançadas por diferentes pessoas, mas, sem
uma pluralidade de indivíduos reciprocamente orientados e dependentes, não há
dança. Tal como todas as demais configurações sociais, a da dança é
relativamente independente dos indivíduos específicos que a formam aqui e
agora, mas não de indivíduos como tais. Seria absurdo dizer que as danças são
construções mentais abstraídas de observações de indivíduos considerados separadamente.
[...] Da mesma maneira que as pequenas configurações das danças mudam –
tornando-se ora mais lentas, ora mais rápidas – também assim, gradualmente ou
com maior subitaneidade acontece com as configurações maiores que chamamos de
sociedades. (ELIAS, 1994, p.250)
Porém, a tão propagada e discutida interrelação
que tantos filósofos e pensadores esmiuçaram com profundidade, permitiu ao
homem chegar a seu estágio atual de desenvolvimento; mas, por conta da grande
complexidade com que nos constituímos nos tornamos muito diferentes entre si e principalmente,
devido a interesses econômicos e políticos pelos quais atravessamos ao longo de
nossa história civilizatória. Nos tornamos seres individualistas e na maior
parte das vezes, no tempo atual, esquecemos o início de nossa história deixando
de colocar os interesses coletivos como objetivo comum, priorizando nossos propósitos
pessoais de enriquecimento e poder.
Para entendermos esse processo Elias (1999) comenta que:
[...] só
podemos falar de funções sociais quando nos referimos a interdependências que
constrangem as pessoas, com maior ou menor amplitude. [...] É impossível
compreendermos a fundo que A desempenha relativamente a B, sem atendermos à
função que B desempenha relativamente a A. Isto é o que se pretende dizer
quando se afirma que o conceito de função é um conceito de relação. (p.84-85)
Em sua consagrada obra – O processo civilizador,
Norbert Elias, busca na história, o entendimento desse processo que nos trouxe
aos dias de hoje. Inicia falando do que chama de sociologia figuracional, onde
afirma serem as configurações sociais, geradas; pós-revolução industrial, que
dividiram a população em classes bem distintas, e que apesar de serem
inteiramente dependentes uma da outra, vivem em constantes conflitos.
A Modernidade se caracterizou pela ascensão da burguesia que direcionou os
meios de produção, exercendo seu poder com mãos de ferro, impondo uma era de
sofrimentos e dor aos desfavorecidos camponeses, que expulsos de suas terras
pela política dos cercamentos, não viu outra alternativa de sobrevivência que
se tornar mais uma mãos de obra a serviço dos interesses fabris da época.
Esse é um exemplo de como se iniciam as grandes batalhas sociológicas
que seguem até os nossos dias. Porém; os desfavorecidos proletários com o
passar do tempo começam a se organizar entendendo ser a união, sua única
possibilidade de melhora, passam a ser chamados operários, criam sindicatos,
aprovam leis, como a CLT, criam partidos políticos, se fortalecem e melhoram
significativamente sua qualidade de vida; mas ainda hoje, observamos que apenas
1% da população mundial dentre 7 bilhões de habitantes detém o controle
absoluto da riqueza do mundo, os outros se distribuem em diferentes classes
sociais , que foram sendo criadas através dos séculos. Dados esses resultantes das
ações do sistema capitalista, sistema que se aperfeiçoa, se fortifica através
dos tempos, que após a derrubada do muro de Berlim, que era o grande símbolo de
enfrentamento desse sistema, trouxe consigo a divisão territorial e política da
URSS e o fim de seu maior bloco socialista opositor, tornando assim, o
capitalismo, o sistema mundial econômico e político absoluto em todos quase os
quadrantes da terra.
Mas acredito e tenho esperança de que nada está dado ou imposto de forma
determinada. Confio na perspectiva de Nobert Elias de que somente pelo movimento que podemos observar as configurações
sociais, visto que essas estão sempre em um constante fluxo:
O que muda no
curso do processo que denominamos de história são as relações mútuas, as
configurações de pessoas e a modelação que o indivíduo sofre através delas.
Mas, no exato momento em que essa historicidade fundamental do homem é vista
claramente, percebemos também a regularidade, as características estruturais da
existência humana, que permanecem constantes. Cada aspecto isolado da vida
social apenas é compreensível no contexto desse movimento perpétuo. Nenhum
detalhe pode ser isolado dele. Forma-se nesse contexto móvel – que pode parecer
lento, como no caso de muitos povos primitivos, ou rápido, como no nosso – e
ele deve ser apreendido, como parte de um estágio ou onda específicos. (ELIAS,
1993, p. 231)
Portanto ao analisarmos formações, das
sociedades ou dos “sistemas”, percebemos que não há como realizarmos análises
de uma ou outra maneira como se fossem acontecimentos totalmente independentes
do indivíduo humano. Tal qual nos afirma Elias (2001), estas são concepções
errôneas. Em uma observação mais aprofundada, percebe-se que a polarização coloca
o eixo das atenções em dois níveis ou duas camadas diferentes de um mesmo
processo factual.
Essa pode ser a pista para que a palavrinha poderosa que me coloquei no
desafio de abordar como tema a ser discutido nesse texto possa produzir novas
configurações em nossa sociedade; “porque
o homem constantemente se constrói, que nada do que é humano [...] é estranho,
a quem pratica esta sorte de estudo”. (RIBEIRO, 1993, p.10).
Se entendemos ter sido ela, a alteridade, a mola propulsora de todo o desenvolvimento
humano, podemos ter esperança de que ao recuperarmos seu sentido ético, novas
configurações sociais se criem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRANDÃO, C. F. A
teoria dos processos de civilização de Norbert Elias: o controle das emoções no
contexto da psicogênese e da sociogênese. (Tese de Doutorado) Marília, S.P. :
Universidade Estadual Paulista – UNESP, 2000.
ELIAS, Norbert. O
processo civilizador – Volume 1: Uma História dos Costumes. Trad. Ruy Jungmann.
Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1994. 2v.
___. O processo
civilizador – Volume 2: Formação do Estado e Civilização. Trad. Ruy Jungmann.
Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1993. 2v.
___. Introdução à sociologia.
Trad. Maria Luísa Ribeiro Ferreira. Lisboa : Edições 70, 1999.
___. Escritos &
Ensaios 1: Estado, processo, opinião pública. Trad. Sérgio Benevides; Antônio
Carlos dos Santos; João Carlos Pijnappel. Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2006.
RIBEIRO, Renato
Janine. Uma ética do sentido. In: : ELIAS, Norbert. O processo civilizador –
Volume 2: Formação do Estado e Civilização. Trad. Ruy Jungmann.
Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 1993. 2v.
O
que devemos pensar é que assim como o ser humano, os sistemas são falhos, não
somos predestinados a permanecermos aprisionados a um biopoder que domina
nossos desejos, podemos nos questionar e até mesmo modificar o curso dessas circunstâncias.
Justamente pela sua característica transitória de se moldar as mudanças do
tempo histórico, como quando a tecnologia passou a dominar a nossa sociedade,
acredito que essas formas de coerção do poder tenham seus pontos de fraqueza.
Cabe a nós criar formas de se contrapor a essas práticas e nos fortalecermos,
criando táticas de enfrentamento que não se submetam à opressão que essas
formas de poder tentam exercer sobre nossas subjetividades
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AGUIAR, Rachel Passeri. Sociedade Contemporânea Disciplinar: o pensamento Filosófico de Michel Foucault - Uma abordagem a partir do livro Vigiar e Punir. 2005.https://psicologado.com/atuacao/psicologia-social/sociedade-contemporanea-disciplinar-o-pensamento-filosofico-de-michel-foucault-uma-abordagem-a-partir-do-livro-vigiar-e-punir - Acesso em: 12/03/2016.
ARAÚJO, Marcos Guilherme Belchior. Pensamento e produção de subjetividade: problematizações entre a clínica e a política. Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação da Professora Doutora Suely Belinha Rolnik. São Paulo, 2006.-http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5BYdCd79-AEJ:livros01.livrosgratis.com.br/cp012856.pdf+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br - Acesso em: 12/03/2016.
COSTA, Rogério.. Sociedade de controle. São Paulo em Perspectiva, 18 (1), 2004, pp: 161-167. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-88392004000100019. - Acesso em: 12/03/2016.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. 14. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.
MENDES, Iba. Foucault e Deleuze: Do poder disciplinar à sociedade de controle. 2011. - http://www.ibamendes.com/2011/02/foucault-e-deleuze-do-poder-disciplinar.html - Acesso em: 12/03/2016.
SOCIEDADE DISCIPLINAR E SOCIEDADE DE CONTROLE.
Ana Carolina G. Cordeiro
RESUMO:
A sociedade se modifica ao longo do tempo e suas
formas de controle também. Nesse artigo
falaremos um pouco dessas mudanças e de como elas exercem suas forças nas
sociedades. Utilizaremos como base as teorias de Gilles
Deleuze e de Michel Foucault a partir das leituras de artigos e textos de
Rogério da Costa, Marcos Guilherme Belchior de Araújo e Iba Mendes.
Palavras-chave: Sociedade Disciplinar, Sociedade
de Controle
A sociedade disciplinar, assim denominada por Foucault, tem seu ápice entre os séculos XVIII ao século XX, e
começa a sofrer mudanças em suas práticas de controle a partir da Segunda
Guerra Mundial, com o avanço da tecnologia e das novas configurações do sistema
Capitalista.
Essa forma de controlar o homem se baseava em um modelo disciplinar que:
[...] se
servia da vigilância nas prisões, escolas, hospitais, quartéis e outras
organizações, fabricando corpos submissos por meio de uma sujeição implantada
nos indivíduos, que se sabiam observados. Era um tipo de poder microfísico [...]
(MENDES, 2011)
Para isso a sociedade disciplinar precisava
encontrar formas de vigilância eficazes. Entre essas formas ou dispositivos
podemos destacar o modelo Panóptico,
de Geremy Bentham, cujo objetivo consistia em “[...] assegurar uma vigilância
que fosse ao mesmo tempo global e individualizante separando cuidadosamente os
indivíduos que deviam ser vigiados.” (FOUCAULT, 1996).
Esse modelo arquitetônico consistia em um espaço
circular com uma torre no centro onde estaria um vigia, porém, esse não
necessariamente estaria ali todo o dia, pois o individuo já estava condicionado
a se comportar segundo as regras daquele ambiente, devido ao receio de fugir
das regras e ser flagrado pelo vigia. Essa sociedade era baseada no medo, no julgamento e na destruição do corpo e
enfraquecimento do alma. Em torno dessa torre ficariam localizadas as
celas onde os indivíduos que estariam sendo vigiados eram colocados quando
estavam fora do alcance de vigilância.
Na
sociedade disciplinar, a produção de subjetividade estava submetida à lógica
funcional de suas instituições fechadas, a moldes institucionais rígidos,
fixos, com suas regras de tempo, espaço e comportamentos estritamente delimitados.
As instituições fornecem ainda um lugar (a sala de aula, a oficina, o lar etc.)
onde se opera a produção de subjetividade. (ARAUJO, 2006)
As mudanças sociais operadas pelas tecnologias e a flexibilização
de um capitalismo em ascensão passam a influir nos modus vivendi tornando os
indivíduos cada vez mais diversos, produzindo categorias de pessoas cada vez
mais heterogêneas o que dificulta ações disciplinares da forma como estas eram exercidas
na Modernidade.
Nesse sentido o modelo de sociedade disciplinar
perdia sua força de ação sobre nossos corpos, era preciso encontrar novos meios
de vigilância, mais eficazes, para manter o poder e os interesses dos países
industrializados. Assim, diante do enfraquecimento dos dispositivos disciplinares
modernos, que já não exerciam sua tarefa de manutenção do status quo capitalista, começam a surgir
outros meios de gerenciamento do poder para conter a abertura das forças
sociais emergentes, denominada por Deleuze como
sociedade de controle.
A sociedade de controle substitui o modelo de panóptico pela “web”. “Existe
uma falsa ideia de liberdade, de não vigília, que segundo Deleuze, seria uma
espécie de modulação constante e universal que atravessaria e regularia as
malhas do tecido social.” (COSTA, 2004)
A ideia da torre de vigia se adapta, agora, a
tecnologia a substitui por câmeras. O individuo é vigiado e controlado 24 horas
por dia, através do celular, das redes sociais, câmeras instaladas nas ruas,
shoppings repartições públicas e privadas enfim a vida pública passa a se
confluir com a vida privada...
Essa transição para a sociedade de controle envolve uma
subjetividade que não está fixada na individualidade. O indivíduo não pertence
a nenhuma identidade e pertence a todas. Mesmo fora do seu local de trabalho,
continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar. (AGUIAR, 2005)
As instituições sociais de controle, na Modernidade, existiam em um
local fixo, mas com essas mudanças nos deparamos com outros dispositivos de
subjetivação não limitados a lugares específicos.
Nesse momento não se busca mais explicar ou convencer, mas seduzir ou
conquistar, entrando em cena as empresas de marketing. Agora o ser humano,
convive com a falsa ideia de liberdade, mas acaba por levar voluntariamente
esses mecanismos de controle para dentro de casa, sem se dar conta de que,
ainda assim, é vigiado e controlado.
Nesse
sentido, para que possamos pensar na produção de subjetividade na sociedade de
controle devemos atentar para os atuais processos de subjetivação do
capitalismo contemporâneo e suas estratégias modulares de intervenção, sedução
e captura que, a um só tempo, equacionam liberação e dispersão dos corpos com
adesão voluntária e produtividade eficazmente controlada. (ARAÚJO, 2006 p.05)
Hoje é veiculado na rede Globo de televisão um reality show, denominado
como “Big Brother”. Apesar de não ser unânime no gosto dos brasileiros e
dividir opiniões, o fato é que boa parte da população se interessa por esse
tipo de exposição da vida privada. Tal qual o programa, na sociedade de
controle vivemos em numa espécie de Big Brother sem que percebamos isso.
Esse termo, “Big Brother”, foi usado pela primeira vez, no livro "1984", de George Orwel, numa sociedade imaginada pelo
escritor, em que as pessoas ficavam sob constante e vigilância das autoridades,
através de teletelas
que repetiam, constantemente, uma frase
propaganda do Estado: "o Grande Irmão zela por ti" ou "o Grande
Irmão está-te observando"
Talvez essa seja uma imagem metafórica da forma
controlada como temos vivido, "como um Big Brother consentido — um
irmão mais velho com bom senso de direção" (PFEIFFER, 2003 in: COSTA,
2004). Consentido, pois acabamos por levar para dentro de nossas casas
celulares, televisões, câmeras, entre outras coisas que estão ali para nos
distrair, como forma de entretenimento, mas são capazes de nos vigiar e
persuadir nossos próprios modos de pensar e desejar.
Um exemplo claro disso são as redes sociais, nessas os
indivíduos publicam a sua vida através de fotos, posts, comentários e
“curtidas” acreditando só estar dividindo suas experiência e opiniões com seus
amigos, o fato é que não só seus amigos, mas suas vidas estão diante de todos.
Por livre e espontânea vontade você se coloca à disposição de um controle.
O controle se mostra presente em sites dos mais
variados, um exemplo claro disso são as sugestões que esses sites te deixam,
por exemplo, de amizade e compra. Eles cruzam suas informações e buscas
anteriores com as de seus amigos e assim sugerem “amigos em comum”. Também é
curioso que após uma busca na internet de determinado produto você se depara em
diversos sites com o mesmo produto e com varias ofertas e promoções. Assim
funciona o capitalismo na sociedade de controle.
As fábricas, da sociedade disciplinar foram
substituídas por empresas, grandes corporações cujo capital está distribuído em
sistemas acionários. Já não se sabe bem quem detém o controle de que na
sociedade de controle. O capitalismo é escancarado. Somos submetidos à sua
lógica até no momento de lazer.
Nossa subjetividade vem sofrendo com a influência da
mídia. Já que para se adequar à sociedade, devemos possuir determinados
produtos. Que absurdo seria se você não tivesse uma televisão ou um computador,
por exemplo? O seu guarda roupa está sempre se modificando, pois, as roupas que
eram moda anos atrás, hoje são consideradas “bregas”. Os cabelos são moldados a
se adequarem às novas descobertas da química cosmética. O corpo das pinturas do
renascimento já não são mais considerados belos, a nova estetização substituiu
os antigos padrões por modelos que requisitam intervenções cirúrgicas e consumo
permanente de cosméticos. O fato é que o capitalismo através das empresas de
marketing visa mudar ou influenciar a subjetividade de cada um de nós com o objetivo
maior, o lucro. Dessa forma mudam as
práticas de “domesticação humana” e o caráter principal, deixa de ter a
intenção de explicar ou convencer, de agora em diante os dispositivos atuam
sobre nossos corpos na dimensão dos desejos e passam a nos seduzir e
conquistar.
A
dimensão material do acontecimento, sua efetuação, se faz quando as maneiras de
viver, de comer, de ter um corpo, de se vestir, de habitar etc., se encarnam em
corpos: vive-se materialmente entre mercadorias e serviços que compramos, nas
casas, entre os móveis, com os objetos e os serviços que captamos, como
‘possíveis’ no fluxo de informações e de comunicação no qual estamos imersos.
Vamos dormir, nos ativamos, fazemos isso e aquilo, enquanto estes expressos
continuam a circular (eles ‘insistem’) nos fluxos hertzianos, nas redes
telemáticas, nos jornais etc. Eles duplicam o mundo e nossa existência como um
‘possível’ que já está aí, na realidade um comando, uma palavra autoritária
mesmo que se expresse pela sedução. (LÁZARATO, 2004 in: ARAÚJO, 2006, p.06)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
AGUIAR, Rachel Passeri. Sociedade Contemporânea Disciplinar: o pensamento Filosófico de Michel Foucault - Uma abordagem a partir do livro Vigiar e Punir. 2005.https://psicologado.com/atuacao/psicologia-social/sociedade-contemporanea-disciplinar-o-pensamento-filosofico-de-michel-foucault-uma-abordagem-a-partir-do-livro-vigiar-e-punir - Acesso em: 12/03/2016.
ARAÚJO, Marcos Guilherme Belchior. Pensamento e produção de subjetividade: problematizações entre a clínica e a política. Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, sob orientação da Professora Doutora Suely Belinha Rolnik. São Paulo, 2006.-http://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:5BYdCd79-AEJ:livros01.livrosgratis.com.br/cp012856.pdf+&cd=1&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br - Acesso em: 12/03/2016.
COSTA, Rogério.. Sociedade de controle. São Paulo em Perspectiva, 18 (1), 2004, pp: 161-167. http://dx.doi.org/10.1590/S0102-88392004000100019. - Acesso em: 12/03/2016.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. 14. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996.
MENDES, Iba. Foucault e Deleuze: Do poder disciplinar à sociedade de controle. 2011. - http://www.ibamendes.com/2011/02/foucault-e-deleuze-do-poder-disciplinar.html - Acesso em: 12/03/2016.
A ARTE COMO AGENTE TRANSFORMADOR
Luciana Barreto de Paula
Nas últimas décadas
muito se tem discutido a respeito das questões referentes aos distúrbios de
aprendizagem apresentados por crianças em idade escolar. E como resultado
dessas discussões, profissionais de diferentes áreas da saúde e da educação,
tais como; psicólogos, psicopedagogos, fonoaudiólogos, médicos e professores se
unem na tentativa de identificar, conceituar, definir estratégias e
metodologias para superar e lidar com o sucesso e insucesso escolar dessas
crianças.
Dentre os distúrbios
de aprendizagem mais frequentes está a Dislexia, dificuldade que o indivíduo tem
em ler, escrever e soletrar e que, por vezes, é confundida como incapacidade
intelectual, o que não é verdade, pois a criança afetada tem suas faculdades mentais
em perfeito estado, e não apresenta distúrbios cognitivos ou sensoriais, o que
acontece é uma falha no processo de aquisição da linguagem escrita.
Segundo a definição
da Internacional DyslexiaAssociation
(IDA) em 2003 através do AnnalsofDyslexia[1]:
Dislexia é uma dificuldade de
aprendizagem de origem neurológica. É caracterizada pela dificuldade em relação
a fluência correta na leitura e por dificuldades na habilidade de decodificação
e soletração. Essas dificuldades resultam tipicamente de déficit no componente
fonológico da linguagem que é inesperado em relação a outras habilidades
cognitivas consideradas na faixa etária em que a criança se encontre (tradução
minha).
Para conhecermos um
pouco mais sobre a Dislexia no contexto escolar, suas dificuldades e como enfrentá-las
convido o leitor a me acompanhar através da narrativa do filme indiano “TaareZameen Par” lançado no ano de 2007, que um nosso país foi nomeado
com: “Somos todos diferentes”.
O filme concebido na
Índia, conta a dramática história de Ishaan Awasshi, uma criança de 8 anos com
Dislexia que luta para vencer e superar os obstáculos impostos por essa
dificuldade de aprendizagem, tanto no seio familiar como
na escola.
Por conta de suas
dificuldades aumentarem e a escola não conseguir “ver resultados positivos em
seu desempenho”, seus pais são comunicados a respeito do seu insucesso escolar
e da sentença final da instituição afirmando ser impossível ele acompanhar os
demais alunos.
Seus professores, por
desconhecerem o diagnóstico de seu problema sentenciam que esse fracasso
escolar tem a ver com preguiça e falta de interesse por parte do menino. Seus
pais, cansados de tantas tentativas, e convencidos que ele era mesmo um garoto
desinteressado e preguiçoso, como castigo, o enviam para um colégio interno
(com regime militarista), na esperança de que através de uma disciplina rígida
ele se “desenvolva nos estudos”.
Após sofrer muito com
a solidão, a saudade da família, com as punições e castigos recebidos pelos professores,
porque não conseguia “aprender e nem se desenvolver” como os demais. O menino entra num quadro de depressão e, aí sim, perde
total interesse pelos estudos e abandona o que ele mais gostava de fazer,
desenhar. Era através de seus desenhos que ele expressava seus sentimentos e o
seu modo de enxergar o mundo.
Muito triste e
deprimido o menino o Ishaan conhece o novo professor de Artes; Ram Shankar, que
foi contratado para substituir o professor titular do internato. O professor
que já havia sofrido com a sua própria dislexia, logo percebeu que algo estava acontecendo
com o menino. Começou a observar que ele não conseguia superar sua dificuldade
com a escrita, confundia a grafia, os fonemas e não relacionava sons a
símbolos, por esse motivo estava sempre muito triste. Como já trabalhava com
crianças com dificuldades de aprendizagem e por ter passado pelas mesmas
dificuldades, reconhece de imediato que se trata de dislexia. Começa então sua
luta para que aquela criança que deixara de ter prazer pelas coisas da vida
voltasse a sorrir.
Aos poucos Ram Shankar
consegue fazer com que Ishaan recupere a auto-estima e compreenda o mundo da
linguagem e da escrita, voltando a expressar sua forma de ver o mundo, através
de seus desenhos.
O professor de artes
realiza um grande evento de arte na escola, onde as crianças se sentem
motivadas a revelarem seus talentos, e Ishaan se supera recebendo uma premiação
que o faz sentir-se valorizado por seu talento através do seu reconhecimento na comunidade
escolar.
O filme traz à tona a
dura realidade de uma criança com Dislexia em idade escolar, que por
desconhecimento ou falta de informações, acaba se tornando um “problema” difícil
e complicado de ser “tratado” nas instituições de ensino e nos leva a refletir
sobre a importância da família, da sociedade e da escola no processo de reconhecimento
e ajuda para que a criança consiga enfrentar os desafios impostos pela Dislexia
sem perder sua auto-estima.
Muitas vezes por
negligencia ou por falta de conhecimento sobre o assunto, essas crianças não
são diagnosticadas precocemente, e se vêem perdidas em suas limitações e
dificuldades de aprendizagem, desta forma, acabam sendo excluídas pelos demais,
estigmatizadas como “anormais”, “diferentes” ou “deficientes”, por não se
enquadrarem nos padrões impostos pela sociedade. Esses estereótipos fazem com
que o aluno com dislexia se isole dentro de seu próprio mundo, o que resulta na
falta de interesse pelos estudos e, em muitos casos chega à depressão. Como
conseqüência, em alguns casos, evidencia-se a desistência que acarreta na
evasão escolar.
Cabe a escola e
principalmente aos professores se manterem atentos as crianças que apresentam
dificuldades de aprendizagem, pois a Dislexia pode ser uma possível causa dessas
dificuldades. Nesse sentido o caminho é buscar auxílio de psicopedagogos, psicólogos
e de possibilidades de intervenções pedagógicas que potencializem o trabalho
escolar com essas crianças. Estes seriam os principais passos para encaminhar e
promover a inserção desses alunos nos contextos que eles vivem, estabelecendo
relações de troca, confiança e interação com o outro, a fim de que esses alunos
não se sintam excluídos dos demais.
O trabalho pedagógico
com crianças dislexas exige muita dedicação por parte do professor que deve
usar de diferentes estratégias que requisitam, criatividade, valorização do aluno
e atenção individualizada permitindo um atendimento que contemple as demandas desse aluno.
No filme, o professor
Ram Shankar propõe uma educação diferenciada através da Arte, como meio de
aproximação afetiva para promover a inclusão e despertar as potencialidades do
menino Iashaan.
O ensino através da
Arte pode ser um instrumento que contribui para que crianças com Dislexia
encontrem seu lugar na escola porque a Arte possibilita a descoberta de novas
sensações, desperta emoções, abrindo espaços para vivenciarmos o mundo
criativamente.
Entendo que esta perspectiva está
em acordo com um dos principais documentos que regem o ensino de Arte
no Brasil: os Parâmetros Curriculares Nacionais de Arte e que nos seus
objetivos gerais de Arte para o ensino fundamental, nos aponta a necessidade de:
Edificar uma relação de autoconfiança
com a produção artística pessoal e conhecimento estético, respeitando a própria
produção e a dos colegas, no percurso de criação que abriga uma multiplicidade
de procedimentos e soluções. (BRASIL, 1997, p. 53-4).
Através da seus
desenhos Ishaan, nos ensina sobre o quanto é importante estarmos atentos as
potencialidades de nossos alunos e o quanto ainda temos a aprender que um
processo educativo não pode ter como referência aquilo que falta e sim aquilo
que o aluno apresenta em potência. Para isso precisamos estar atentos não só
aos aspectos voltados para a cognição, temos que aprender a olhar e valorizar
os aspectos emocionais, a percepção, a sensibilidade, a maneira de se
expressar, a criatividade, enfim, tudo aquilo que a escola muitas vezes
despreza e por sua incapacidade de enxergar acaba por produzir o fracasso
escolar.
Segundo Lukcács;
A arte opera diretamente sobre o
sujeito humano: o reflexo da realidade objetiva, o reflexo dos homens sociais em
suas relações recíprocas, no seu intercambio social com a natureza, é um
elemento de mediação - ainda que indispensável – e simplesmente um meio para
provocar o crescimento do sujeito. (1978, pag. 295-6)
O trabalho com a Arte
possibilita ao aluno exteriorizar seus pensamentos, sua forma subjetiva de
enxergar o mundo a sua volta, auxilia-o a reconhecer e a lidar com o outro a
sua volta e principalmente ser enxergado por esse outro como seu semelhante.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Dados Filmográficos;
Titulo Original:TaareZameen Par
Origem: Índia
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros
Curriculares Nacionais: Arte. Brasília: MEC/SEF, 1997.
LUKÁCS,
George. Introdução à estética marxista. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira: 1978.
[1]Periódico Internacional dedicado aos estudos científicos da dislexia.http://eida.org/annals-of-dyslexia/
Priscila Costa Pereira da Silva
O que é uma família? Existiria uma
família "normal"? Esta é uma questão que as experiências vivenciadas
em nossas sociedades contemporâneas nos convidam a pensar e problematizar.
Se olharmos para as formas como as
pessoas no mundo contemporâneo se “unem” para criar um sentido de família
podemos, já de início, podemos afirmar que este é um conceito que tem um
caráter subjetivo, justamente porque está relacionado aos modos como as pessoas
definem determinadas conjunturas sociais, políticas ou mesmo familiares em que
estas se inserem.
Apesar de nossa Constituição Federal de
1988, corporificar o conceito de família na perspectiva de Lucien Lévy-Brühl,
de que “a linha predominante do desenvolvimento da família é sua inclinação
para se tornar um grupo cada vez menos arranjado e hierarquizado e cada vez
mais assentado na afeição recíproca” (GENOFRE, 1997). Ainda hoje, percebemos
que é muito comum, principalmente em instituições de moral religiosa ou grupos
sociais cuja moral “não acompanhou o curso da história”, a família ser
representada pelas imagens de pai, mãe e filhos. Esta ainda é a imagem de
família modelo que se evidencia em boa parte de nossas sociedades.
Você e sua avó são uma família. Pai ou
mãe; solteiros, com seus filhos, é uma família. Principalmente, pela a entrada
de mulheres no mercado de trabalho e o incentivo a emancipação financeira
feminina.
A imagem da família moderna dos séculos
XVII e XIX persiste no imaginário ideal de família e acabam por influenciar a
concepção e a opinião, ou melhor, o senso comum de boa parte da população, o
que acarreta na rejeição a outras concepções de família.
A família patriarcal cumpriu seu papel de
reprodução de costumes, que ainda são mantidos por muitas famílias, onde o pai
trabalha fora trazendo o sustento para família, e a esposa é dona de casa. .Além
disso, existe uma espécie de culpabilização daqueles que não se enquadram nesse
modelo de família tradicional que inspirou a família nuclear na sociedade
Moderna. Essas novas formações familiares, próprias das sociedades
contemporâneas, muitas vezes são estigmatizadas por aqueles que não se
conformam com as novas conformações familiares cujos laços de afeto se
sobrepõem a qualquer modelo ou estrutura pré-determinada.
É nesse sentido que dei início a essa
escrita questionando a existência de um modelo de família “normal” e dou
continuidade ao mesmo afirmando que as Sociedades Contemporâneas,
diferentemente das Sociedades Modernas nos estimulam a pensar em novas
famílias, novos modos de formação familiar, mesmo que ela própria ainda não
seja capaz de legitimar todas as formas de famílias existentes. Por mais que
tenhamos múltiplas conformações familiares a concepção nuclear deixou raízes
profundas na nossa moral e o que se evidência ainda são movimentos, políticos,
alguns de fundamento religioso, que evocam a proteção e manutenção do modelo familiar
nuclear e monogâmico.
Vale lembrar que ao investigar a origem
da neurose, estudos esses que contribuíram para o desenvolvimento da teoria
psicanalítica, Freud conclui, a partir dos relatos de seus pacientes, que o sofrimento na histeria, na maioria das vezes tinha suas causas
nos sentimento de culpa por desejos reprimidos pela moral rígida imposta pela a
família nuclear burguesa que estava em seu apogeu na época em que deu início a
esses estudos.
Aquele foi o modelo de
família onde germinaram as modalidades modernas de mal estar, que Freud associou
às exigências da monogamia, às restrições sexuais impostas, sobretudo às
mulheres, à claustrofobia doméstica que contribuía para fixar os filhos no
lugar de objetos do amor incestuoso de suas mães. Observem que estou invertendo
propositalmente os termos do chamado Complexo de Édipo, ao afirmar que são as
mães, insatisfeitas tanto com as limitações de seu destino doméstico quanto com
a pobreza de sua vida sexual, que fazem dos filhos o objeto de um investimento
libidinal pesado demais. (KEHL, 2003, p. 4)
A família tem a função social de preparar
as crianças para o convívio em sociedade, porém, em seu artigo: ‘‘Em defesa da
família tentacular’’, Maria Rita Kehl (2003) diz que, “os papeis familiares
podem ser mudados, mas não pode ser mudado o interesse e a presença do adulto
sobre a criança, colocando limites, mas também sendo amoroso”.
É bom lembrar que:
A família estruturada
que ocupa nossas fantasias nostálgicas produziu a histeria como sintoma do
desajuste das mulheres em relação ao lugar que lhes era destinado e aos ideais
de feminilidade, impossíveis de se sustentar. Produziu a neurose obsessiva como
expressão da impossibilidade de um homem afirmar sua virilidade diante de um
pai que ele deve, ao mesmo tempo, idealizar e ultrapassar. (KEHL,
2003, p. 4)
A citação nos dá a pensar que a crise
existente nas famílias, não é culpa do surgimento de novas composições
familiares e sim de uma complexidade de fatores, dentre eles podemos nos
referir a uma moralidade que impõem modos únicos de existência, que acabam validando
um modelo de família que ao ser imposto como padrão a ser seguido, pode causar
sofrimento e exclusão daqueles que se constituem por laços de afeto e
amorosidade que não estão de acordo com os modelos instituídos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GENOFRE, R. M. Família:
uma leitura jurídica: a família contemporânea em debate. São Paulo:
EDUC/Cortez, 1997.
KEHL, Maria
Rita. Em defesa da família tentacular.
Artigos &Ensaios, 2003. In: http://www.mariaritakehl.psc.br/PDF/emdefesadafamiliatentacular.pdf
- capturado em:12/03/2016
SUBJETIVIDADE
E SEXUALIDADE FEMININA
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES A
RESPEITO DA FORMAÇÃO DE PROFESSORES E SUAS RELAÇÕES COM AS SUBJETIVIDADES
INFANTIS
Fabiana Santiago e Rebecca
Nunes
A formação de
professores sempre foi um tema bastante discutido entre os que exercem essa
prática. Nos dias de hoje, se torna cada vez mais necessária abordagens sobre o
tema para que possamos compreender as diferenças que circulam pelo nosso
ambiente diário.
A escola é um
ambiente de aprendizagem e convivência com o outro. No que diz respeito às crianças, esta vem,
cada vez mais, requisitando de seus profissionais a mediação de práticas mais
igualitárias entre as diferenças. Isto porque cada criança possui características
próprias que as tornam diferentes umas das outras, nos convidando a discutir a
respeito de questões relacionadas à subjetividade.
Para González Rey (1997), a
constituição da psiquê é um processo [...] ativo, em que o social e o
individual estão inter-relacionados dinamicamente. [...] a subjetividade como
um sistema de significações e de sentidos constituídos pelo sujeito no qual
este vai desenvolvendo de acordo com suas necessidades e com seus movimentos na
vida social. (SANTOS, 2013, p. 7)
Desta forma, cada um apresenta
uma reação singular diante de um determinado acontecimento e para cada situação
diferente em que se é colocado.
A família atua de
modo bastante significativo na formação da criança, pois esta é, na maioria das
vezes, o primeiro contato que a criança estabelece com o mundo. Assim, a
família transmite seus valores e crenças influenciando nos modos da criança ver
o mundo. Porém, a partir de certa idade, a família deixa de ser a principal
instituição que a criança convive e a escola, também, passa a fazer parte da sua
vida, tornando-se mais um meio socializador para que a criança possa formar
suas visões de mundo e aprender sobre a vida, além de conteúdos disciplinares. Santos (2013, p. 24) diz que “o
primeiro ideal da criança vai sendo substituído pela figura do professor. Todas
as expectativas que antes eram nutridas pelos pais passam a ser transferidas
para o professor, não o sujeito físico, mas o psíquico.”
Cada criança constitui
uma subjetividade própria. Todas as crianças são diferentes. Se são parecidas
por conta da cor do cabelo, cor dos olhos, cor da pele... São diferentes nos
modos como compreendem e se comportam diante das coisas da vida. Portanto, é
necessário que o educador entenda como isso é importante para suas vidas e em
seus processos de aprendizagem.
Um dos maiores
desafios da escola se refere aos alunos excluídos e repetentes. Como lidar com
aqueles que, de certa forma, foram rejeitados, por se portarem de modo
diferente das formas da escola?
Estes alunos
necessitam que a escola e seus professores estejam atentos para aspectos que
são subjetivos, direcionando seus olhares para o reconhecimento de valores e qualidades
que podem estar silenciados por falta de uma escuta mais atenta.
Todo aluno traz
consigo potencialidades, porém, alguns necessitam de uma atenção específica
para poder demonstrar aos outros como reconhecê-las. Quando criamos essas
oportunidades esses alunos podem se mostrar sujeitos ativos e transformadores
de suas realidades.
Compreender que a
subjetividade faz parte da condição humana pode mudar o modo do professor
enxergar a si mesmo, mas principalmente o modo de enxergar seus alunos. Desta
forma, evidencia-se a necessidade do estudo da Psicologia da Educação na
formação dos docentes, pois é nela que podemos estudar e entender a diversidade
que nos constitui enquanto sujeitos e repensar as diversas formas como cada
ser se apresenta para o mundo, para que possamos entender que não há uma
didática ideal no que se refere aos processos de ensinar e aprender.
Não cabe ao professor
direcionar a criança ao certo, posto que o certa para um não é necessariamente
o certo para outros, nesse perspectiva, há que se fazer com que ela descubra
seus próprios caminhos estabelecendo o diálogo com a criança para que ela veja
o professor como uma figura que deve ser respeitada não como dono de uma
verdade, mas como companheiro mais experiente que pode ajudá-la a caminhar em
sua jornada rumo ao conhecimento.
Para tanto o
professor precisa enxergar as diferenças de cada um de seus alunos,
disponibilizando atenção para aqueles que demonstram dificuldade em conversar e
expressar seus sentimentos e opiniões. O conhecimento se dá, através do diálogo
que é estabelecido com o outro.
O ensino deve estar
focado no aluno, em suas demandas Um professor autocrático recusa-se a
estreitar laços com o aluno, não lhe dando ouvidos. Isto pode gerar uma grande barreira
para que o aluno, queira conversar, compartilhar sua vida e suas dificuldades
em relação ao que se passa com ele, diante da “escuta” indiferente do docente.
A formação acadêmica
precisa voltar-se para esses debates que se tornam cada vez mais necessários
para fortalecer os elos emocionais entre aluno e o professor.
Quanto mais o aluno se
torna independente e seguro de si, quanto mais ele se encontra disposto a
aprender e a mudar, mais o trabalho do docente é reconhecido e valorizado. Não podemos
desconsiderar o que o aluno sente e pensa. Isso acaba desfavorecendo, também, o
lado racional do aluno que a escola tanto preza.
É necessário
incentivar, cada vez mais, a participação dos alunos para que estes possam enxergar
a escola como uma instituição de aprendizagens que serão importantes para suas
vidas, e não como uma prisão, cuja grade curricular encarcera modos únicos de
saber e aprender.
Cabe à escola transmitir
a história e o conhecimento civilizatório construído ao longo dos tempos, mas
todo esse conhecimento deve ser oferecido ao aluno como arma de libertação e
não como um grilhão de sujeição, para que assim possam se libertar, justamente,
dos “achismos” do senso comum.
A subjetividade é o
aspecto que nos singulariza e tudo o que se aprende, se estuda, se ouve e se vê,
vai influenciar no modo como nos constituímos enquanto pessoas. É necessário
que a teoria esteja relacionada com a vida. A massificação de matérias, comumente
presente no modelo da escola tradicional, não produz sentido para o aluno. Isto
faz com que ele se torne resistente ao aprendizado e fique sem vontade, até, de
ir para escola, quando deveria ser ao contrário.
Na teoria
psicanalítica, o professor possui um papel fundamental na construção do saber e
do desejo do aluno, fazendo que este tenha o professor como referência. O
educador precisa entender que ele exerce um papel que pode servir de modelo
para o aluno, daí a responsabilidade de sua postura frente a esses jovens e
crianças.
O professor deve ter sensibilidade ao
conduzir a transferência do conhecimento, pela paixão ao aprender. E somente a
postura do professor é que poderá guiar esse aluno nessa passagem, pois ela
pode contribuir para o seu sucesso ou insucesso. (SANTOS, 2013, p. 25)
É necessário que o
docente tenha amor pelo que faz. É necessário que ele tenha conhecimento que a
formação do aluno está, em grande parte, sendo influenciada por seus
ensinamentos.
A formação
intelectual tem relação com aspectos implícitos da subjetividade. Lembrando,
sempre, que o desejo de muitas crianças é “ser como os professores são”, pois
estas o vêem como detentores de saberes que os alunos desconhecem.
Nesse sentido, pensamos a prática
docente não somente como um espaço de aplicação de saberes provenientes da
teoria, mas, um espaço onde esses sujeitos se deparam com situações singulares,
imprevisíveis e complexas, onde é preciso lançar mão de saberes específicos de
suas vivências, as quais trazem em seu bojo mecanismos mentais que dão forma às
suas atitudes e que coloca em foco a subjetividade docente (...). (GOMES, 2012,
p. 1 - 2)
As escolas públicas
em nosso país, em sua grande maioria, se encontram em situações precárias. O
ensino, o material didático e as avaliações deixam a desejar, pois, são
utilizados de forma sistemática. Os alunos não são robôs. Não cabe à escola o
papel de “disseminar o senso comum”, mas isso não impede que ela mantenha
diálogo com o senso comum de seus alunos para problematizar e provocar
questões.
É muito mais fácil
apenas ler o conteúdo do livro sem que se desenvolta um debate, sem que se
ligue o conteúdo à realidade. É muito mais fácil não corrigir o que, muitas
vezes, está ultrapassado no próprio livro didático. “Para Mota (2012), o mal
estar do docente ocorre quando eles se deparam com a realidade escolar e se
sentem impotentes frente as suas demandas.”
(in: SANTOS, 2013)
Não podemos negar as
próximas gerações possibilidades de um “novo” futuro. Não se deve ignorar a
subjetividade de cada aluno, tratando-os igualmente. Cada um possui o seu
tempo, o seu jeito de aprender. É necessário que se estimule entre os alunos o
entendimento das diferenças para evitarmos mais uma geração produtora de
desigualdade social através da manutenção de práticas de opressão.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
SANTOS, Talyta Reis dos. O lugar do infantil
na formação de professores e alunos das séries iniciais. Universidade de
Brasília, Brasília, 2013.
LUZ, Célia Lopes da. Formação do professor, subjetividade e
relação com crianças da Educação Infantil. Universidade Católica de Goiás, Goiânia,
2008.
GOMES, Vilisa Rudenco; BARBOSA, Ana
Clarisse Alencar. Princípios na
construção da subjetividade docente. ANPED SUL, Florianópolis, 2012.
AGUIAR, Raquel Passeri. Noção de Subjetividade na Perspectiva da
Psicologia Social. 2015. Disponível em: https://psicologado.com/atuacao/psicologia-social/nocao-de-subjetividade-na-perspectiva-da-psicologia-social
Data de acesso: 21 de março de 2016.
RELAÇÕES ENTRE INFÂNCIA E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO
Maria Clara Braga
Bianca Fernandes
Denis Feijó
A
subjetividade é “a síntese singular e individual que cada um de nós vai
constituindo conforme vamos nos desenvolvendo e vivenciando as experiências da
vida social e cultural” (BOCK, at all, 1999,
p.25). Trata-se da síntese relacional do mundo interno de todo ser humano com
seu meio, porém há que se destacar que não estamos tratando de síntese como
algo acabado, mas como processo em que novas sínteses, constantemente estão se
criando. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos.
Através da nossa subjetividade construímos e nos constituímos nos espaços sociais,
ou seja, nos relacionamos com o "Outro".
Alguns
autores defendem a tese de que através
dessas relações nos inserimos dentro de esferas de representações sociais em
que cada sujeito ocupa seu papel de agente dentro da sociedade, porém,
através de nossas aulas de psicologia tivemos a possibilidade de entrar em
contato com outras perspectivas teóricas que problematizam essas
concepções hegemônicas que isolam os sujeitos em uma experiência
individualizada, universal, estrutural e racional. Assim, ao concebermos os diferentes modos de subjetivação e constituição das
subjetividades enquanto categoria processual; entendemos que esta visão relaciona-se com a dimensão ética da vida, na medida em que
promove uma ruptura com abordagens que inserem a subjetividade nos
modelos naturalizantes e individualizantes que estão dispostos no registro do
social como norma.
Modelos
que organizam e justificam racionalmente um determinado modo de ser e existir,
condicionado ao quadro de normas e valores instituído por uma moral social que
nos exige uma determinada postura a ser ensinada e cobrada dos sujeitos,
excluindo tudo e todos que não estão subordinados a essas normas.
É
necessário ressaltar que tratamos nesse artigo da desconstrução do discurso sob
o qual a família assume papel preponderante na construção da subjetividade da
criança, tomando a família como um de tantos outros elementos pelos
quais os humanos se relacionam. Até mesmo
porque nesses discursos estão embutidas normas que instituem um modelo familiar
pré-definido desconsiderando que a família ocidental contemporânea, possui
diversas faces, construídas diante das diferentes situações econômicas e
culturais.
Assim,
esses discursos tão comumente expressos em contextos escolares que proclamam
uma “família estruturada” só reconhecem a tradicional família patriarcal,
constituída por um grupo familiar nuclear habitando os mesmos espaços,
participante protagonista do cotidiano e atividades da criança, tornando-se
parte da construção da sua subjetividade a partir de valores, interiorização
das normas, concebida como “a” responsável pela construção social primária.
Não
há como conceber uma “formação familiar mais comum” na atualidade. Ao pensar a
respeito das relações entre infância e família há que se entender que, essas
famílias podem ser compostas por pais divorciados, mães-solteiras, ou parentes
com vínculos mais distantes; como avós, tios e primos, que mesmo com suas
diferenças possuem pontos que fazem deles uma família ou mesmo filhos de uniões
homo afetivas.
Sabemos
que os cuidados parentais (pai e mãe ou outros que ocupem esses lugares) e do
restante da família, são importantes, assim como todos do grupo familiar ou não,
que vão lidar com a criança. Mas o que devemos nos perguntar é: Que sentidos
essas relações assumem para as crianças? Como cada criança lida com a aceitação
ou rejeição, o amor e o ciúme, as perdas, a competição, etc. Esses são fatores
a serem considerados na rede de inter-relações sociais que as crianças lidam em suas vidas e que agenciam
diferentes modos de subjetivação que estão para além do reducionismo familiar. Portanto,
já não podemos mais tomar como referencia “a importância da família” para
análises que procuram entender as relações da infância com o mundo circundante
levando em conta a complexidade dessas relações. Há que se ressaltar que não
estamos com isso desprezando o contexto familiar nessas relações, mas
relativizando “um lugar” que supostamente a assumiria uma hierarquia
privilegiada nesses processos. Aliás, não podemos esquecer que existem aqueles
que sequer tiveram “uma” família e, no entanto, também se constituem por
processos de subjetivação.
Decide-se, então, pelo uso do termo;
componentes de subjetivação, ao invés de subjetividade, pelo fato do sujeito
ser complexo, oculto e incerto devido aos acontecimentos externos a ele,
deixando assim que a subjetividade tenha um aspecto rígido, sem fixações na
família ou em outra instituição social qualquer. Não estamos com isso
destituindo o lugar da família na formação da criança, mas estamos nos
referindo ao fato de que "a
subjetividade está em circulação nos conjuntos sociais de diferentes tamanhos:
ela é essencialmente social, e assumida e vivida por indivíduos em suas
existências particulares". (GUATTARI
e ROLNIK, 1986, p. 33) e que, portanto
esta se dá de uma forma mais livre, onde cada uma de suas características
possam se expressar através de uma forma...
[...] particular de se colocar, de
ver e estar no mundo que não se reduz a uma dimensão individual. A
subjetividade é um fato social construído a partir de processos de
subjetivação, o qual é engendrado por determinantes sociais – históricos,
políticos, ideológicos de gênero, de religião, conscientes ou não. Dessa forma,
em diferentes contextos culturais, diferentes subjetividades são produzidas
(Dimenstein, 2000, p. 116-117).
As
subjetividades resultam de uma mistura de vetores subjetivos vindo de todos os
lados, promovendo assim as condições de produção das subjetividades.
Guattari (2000) destaca os
fatores heterogêneos que de forma transversal e não-hierárquicos, se arranjarão
para secretar novas formas subjetivas.
Instâncias humanas
intersubjetivas manifestadas pela linguagem e instâncias sugestivas ou
identificatórias concernentes a etologia, interações institucionais de diversas
naturezas, dispositivos maquínicos, tais como aqueles que trabalham com o uso
do computador, universos de referência incorporais, tais como aqueles relativos
à música e às artes plásticas... (GUATTARI, 2000, p. 20)
Há no movimento intersubjetivo o
processo da constituição da subjetividade. Para que haja esse movimento, é necessária
a troca/contato entre diferentes fatores. Dessa maneira, é possível dizer que
nossas visões de mundo se dão na experiência subjetiva com o mundo.
Como podemos
apreender da citação acima:
[...] o autor opera uma
descentralização de componentes de uma interioridade psicológica, auto-fundante
ou mesmo fundada pela essencialidade dos complexos familiares, tão cara ao
saber psicológico, em favor de uma noção dotada de complexidade, nos termos de
considerar uma multiplicidade de elementos (lingüísticos, institucionais,
sociais, culturais, de mídia) possíveis de nos criar num campo existencial de
auto-referência. (LEITE, 2002, p.58)
Observa-se, então, que a
intersubjetividade diz respeito às relações imaginárias, simbólicas e reais vivenciadas
pelos indivíduos, além de ser, também, um tecido de herança familiar, mas que
será transformado, pois acima de tudo encontram-se as crianças e seus modos
peculiares de perceberem-se no espaço em função de um ou mais
"Outros".
O que entendemos da infância foi
constituído a partir da sua invenção no Ocidente, que ocorreu apenas na
passagem do século XVIII para o século XIX. Isso porque a produção da qualidade
de vida da população dependia agora de um investimento maciço nos jovens, portanto:
Acessar as
subjetividades é, portanto, conhecer como os indivíduos ou grupos sociais fazem
sua história, seja reproduzindo, negando ou recriando esquemas culturais ou
regimes de verdades vigentes, desfamiliarizando a noção de que exista um
sujeito implacável ao tempo, à história, e à cultura. (Nardi, 2002)
Inicialmente
a proposta desse texto era refletir a respeito da “importância da família na
construção da subjetividade infantil”, mas, na medida em que fomos realizando
as leituras para abordagem do tema, percebemos que a escrita exigia um deslocamento para outros planos de
entendimento. Compreendemos que quando falamos de infância algumas questões se
fazem prementes: De qual infância estamos tratando? Podemos falar da infância
no singular? Seriam homogêneas as experiências de nossas crianças? Estariam
seus mundos restritos as categorias sociais universalizantes da família e da
escola ou as crianças vivenciam experiências plurais em contextos diversos?
Diante dessas questões surge aquela que deslocou a escrita desse texto: podemos
estabelecer hierarquias de importância nos processos de subjetivações infantil
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BOCK, A. M. B. A Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva
crítica em Psicologia. In A. M. B. Bock et al. (Orgs.), Psicologia sócio-histórica: uma perspectiva crítica em Psicologia. São
Paulo: Cortez, 2001.
DIMENSTEIN, M. A cultura profissional do
psicólogo e o ideário individualista: implicações para a prática no campo da
assistência pública à saúde. Estudos de Psicologia, 5 (1), 95-121,
2000.
GUATTARI, F. Heterogênese. In F. GUATTARI
(Org.), Caosmose: um novo paradigma estético (pp. 11-95). São Paulo:
Editora 34, 2000
GUATTARI, F. & ROLNIK, S.. Micropolítica: cartografias do desejo.
Petrópolis: Vozes, 1986.
LEITE, Jáder F., & Dimenstein, Magda. Mal-estar na
psicologia: a insurreição da subjetividade. Revista Mal Estar e Subjetividade, 2
(2), 2002. Recuperado em 24 de maro de 2016, http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482002000200002&lng=pt&tlng=pt.
NARDI, H. C. Trabalho e ética: os processos de subjetivação de duas gerações de
trabalhadores metalúrgicos e do setor informal (1970-1999). Tese de
Doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2002.
ALÉM
DA IMAGINAÇÃO, DA IMAGEM E DO SOM:ALGUNS APONTAMENTOS ENTRE SUBJETIVIDADE, MÍDIA E INFÂNCIA
Jackeline Barboza
Thais da Silva
Ariane Dias
RIta Pavan
“De
meia em meia hora, uma nova pesquisa
Mas como, se ninguém nunca me analisa?”
Rita Lee
Quando se fala da infância, logo estabelecemos relações com outros
extratos e fenômenos sociais que atravessam nosso mundo contemporâneo, tais
como: família, educação, tecnologia, mídia, entre outros. Ao estabelecermos
essas relações somos levados a refletir sobre as influências que esses aspectos
exercem ou podem exercer na formação da criança.
A maioria das abordagens científicas, principalmente aquelas
relacionadas ao desenvolvimento humano, sob perspectivas empiristas ou
inatistas, orientam abordagens de conhecimento da criança a partir de um modelo
único e padronizado, endereçando à educação modelos de ensino/aprendizagem que
visam controlar e prescrever o que é ou não é adequado à determinada fase de um
determinado desenvolvimento infantil. Desta forma, desumaniza o indivíduo do
mesmo modo que os sistemas políticos e ideológicos, pois os fenômenos humanos
são naturalizados como fôrma, enquadrados em modelos fruto de resultados de
pesquisas que desprezam a condição subjetiva que nos constituem, portanto
desvinculando a criança de suas experiências cotidianas.
As crianças estão sempre a inventar novas formas de apropriação
das imagens e experiências daquilo que vivenciam. Talvez possamos afirmar que o
modo como exercem o pensamento pode nos ensinar a pensar o mundo de forma menos
fragmentada, como uma tessitura que, tal qual Sherazad, reinventa a vida em
narrativas. Através de histórias abertas, as crianças rompem com a
temporalidade homogênea e vazia das metanarrativas iluminadas pelo projeto de
uma Modernidade que prometeu ao homem a felicidade através da emancipação de
seus dogmas e mitos. Elas nos recordam que o mundo imaginário é fonte
inesgotável de sonhos. (SILVA &MARTON, 2014, p.2690
Muitas vezes os pais acabam sendo culpabilizados pelo que acontece
com seus filhos quando estes não se enquadram aos modelos estabelecidos pelas instituições
escolares. Mas será que a escola vem repensando sua função educativa diante das
grandes transformações sociais pelas quais temos passado nas últimas décadas? Fruto
do acelerado avanço tecnológico, além das demandas de tempo requisitadas aos
pais pelas novas conformações do trabalho? Qual seria o novo papel da escola
diante desse quadro social? O que ela entende por Educar?
Etimologicamente a palavra Educar vem do Latim
:
Palavra
“Educação”, em português, vem de “Educar”, a
origem desta, por sua vez, é do Latim EDUCARE que
é um derivado de EX, que significa
“fora” ou “exterior” e DUCERE, que tem o significado de “guiar”, “instruir”,
“conduzir”. Ou seja, em latim, educação tinha o significado literal de “guiar para fora” e pode ser entendido que se conduzia
tanto para o mundo exterior quanto para fora de si mesmo[1].
Portanto, poderíamos dizer que o “desvio à regra”, ou seja, aquilo
que é considerado errado para a escola e que esta por sua vez transforma em anomalia,
como um problema a ser tratado, poderia ser transferido de posição e atribuído
à própria instituição escolar, na medida em que esta toma a criança para si e
esquece que em sua origem, o ato de educar - “ducere” - teria que estar comprometido com o processo de
emancipação da criança para que esta possa viver com autonomia no mundo,
através do conhecimento de si e do reconhecimento do outro, como alguém que lhe
é imprescindível para que ela possa existir. Neste sentido, a subjetividade
precisa ser tratada como processo que se constitui nas relações sociais.
Infelizmente a escola parece não ter caminhado com o fluxo da
história e insiste no olhar cristalizado dos modelos institucionalizados na
modernidade que a inaugurou. Desse modo, para a escola a relação entre pais e
filhos se encontra em total declínio e a escola na maioria das vezes não
consegue suprir o papel arcaico de um modelo patriarcal de família que já não
nos cabe mais.
Fixada em modelos do passado e preocupada em suas acusações de
culpa por fracassos que ela própria produz, a escola esquece de se atualizar
com o que está acontecendo no tempo presente. Acaba que a tecnologia com todo o
seu avanço fica menosprezada pela escola que perde espaço para a internet.
As crianças de hoje tomam conhecimento do mundo através das mídias
e acabam formando seus valores através destas, pois estas se apresentam às
crianças de modo muito mais atraente e contextualizado com os modos de vida
atuais.
Não estamos com isso tomando partido em favor das mídias
contemporâneas, advento das novas tecnologias, mas sim problematizar essa
relação entre criança e mídias contemporâneas, para que, como educadores
comprometidos com uma formação ética, possamos pensar de modo menos simplista e
tendencioso sobre as questões que envolvem esse tema.
Ao colocarmos em debate as relações entre infância e cybercultura
estamos tentando pensar sobre o lugar que as crianças ocupam nesses espaços
virtuais. Se para alguns pesquisadores as crianças seriam “nativos” na cybercultura
e, portanto, verdadeiras expertises
nesses espaços; para outros, as crianças estariam vulneráveis e desprotegidas
[...] (CANELA, 2009, p. 249).
Além disso, muitos adultos possuem uma visão
fechada e única da infância, acreditando no que é certo para a vida da criança
sem se questionarem sobre o que convêm à vida de uma criança, pois estão tão
preocupados com o futuro, a vida adulta e esquecem que eles estão
experimentando o presente.
Nesse sentido Rita Ribes (2013) nos alerta que:
A complexa relação entre a
criança e a cultura vem acumulando significativas reflexões nos diferentes
campos disciplinares dos estudos da infância de maneira que é possível afirmar
que o reconhecimento da participação da criança na cultura já tenha se tornado
discurso corrente na literatura acadêmica. No âmbito dos estudos da infância, é
matéria corrente a compreensão de que a criança nasce inserida numa cultura e
que a criança a ressignifica e recria com os instrumentos que essa mesma
cultura lhe permite. Em suas brincadeiras, suas demandas e seus modos de agir,
mais do que imitar o mundo social supostamente já instituído, as crianças
formulam a sua crítica, o afetam e o recriam. Walter Benjamin, em texto de
1926, já insistia em dizer que se a criança não é nenhum Robinson Crusoé, assim
também as crianças não constituem nenhuma comunidade isolada, mas sim uma parte
do povo e da classe de que provém (2002, p. 77); Essa concepção encontra eco
nos estudos de Vigotiski (2009) que nessa mesma época já salientava o papel
ativo da imaginação infantil na ressignificação da cultura, uma vez que a
criação do conhecimento implica a combinação de elementos que a realidade
social torna disponíveis (p.322)
Diante
do exposto por essa pesquisadora resta-nos a pergunta: Do que exatamente queremos proteger as crianças? O que tememos
quando estas expressam seus pensamentos? Não
seria o momento de nos orientarmos pelo que dizem Silva e Marton (2014)?
As crianças, por se
mostrarem bem menos impregnadas pela domesticação de raciocínios que dividem o
lógico do “absurdo”, estão a nos proporcionar a possibilidade do real e do
imaginário imbricados entre si. (p.269)
Desta forma as crianças ameaçariam nossas
verdades absolutas? Seria esse o nosso medo? Às vezes pensamos que sim. Que
esse é o medo dos adultos, ou seja, que as crianças desde muito cedo descubram
as mediocridades presentes na vida adulta e sem pudor exponham para nós aquilo
que não desejamos ver. Talvez por isso as ocupemos em demasia para não terem
tempo para pensar e nos questionar sobre uma vida ética.
Essas crianças são matriculadas muitas das vezes em horários
integrais nas escolas, cumprindo toda uma rotina de ocupações, todos os dias
são obrigados a assistir aulas de inglês, ballet, música, natação, informática,
teatro e outras diversas atividades complementares, com uma rotina tão
cansativa e cheia que acaba não sobrando espaço param se expressarem. Segundo
Sousa (2005), “a criança é submetida a várias atividades para que seja preparada
da melhor forma possível para o futuro, portanto constitui senhas identitárias
de passagem para a vida adulta” e que, paradoxalmente, os adultos evitam deixar
que elas pensem por elas.
Ao analisarmos o que a mídia vem oferecendo nos dias atuais
chega a ser algo assustador, um mundo cercado de violência,
falta de amor ao próximo, um alto nível de consumismo, questões que estão
expostas como feridas em nosso cotidiano e não há como esconder. Mas, quem
criou o mundo presente? Não fomos nós os adultos que foram crianças no passado?
Pelo visto as vendas e o silêncio a que fomos submetidos não evitaram a miséria
na vida presente.
Temos consciência dos modos de sedução midiáticos
que tentam produzir valores supérfluos voltados para o consumo. A mídia faz uma propaganda em massa para que as crianças
desejem mais brinquedos e diversos produtos customizados como um meio de
padronização do desejo.
Mas nós que somos adultos temos escapado desses mecanismos de
persuasão? Adianta criticar a mídia e tentar impedir o acesso das crianças a um
meio de comunicação que faz parte de sua própria cultura?
Com isso, podemos dizer que estamos negando a subjetividade da
criança. Negando o fato de que nossas
subjetividades não estão dadas ou podem ser formatadas. Nossa condição
subjetiva se constitui nas relações com o mundo, seja cultural, econômico ou
social em que estamos inseridos.
Não é porque uma criança vivencia a violência, esta acabará se
tornando uma criança violenta, sem limites. O importante é como os pais e as
escolas tratam esses temas com a criança. As crianças são capazes de pensar e
sobre os modos como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece.
Por esse motivo, enquanto educadores, devemos
sempre garantir atividades livres onde eles possam se expressar, pois a
aprendizagem não é feita somente nos livros e sim nas relações com o outro, devemos respeitar o espaço de cada um, pois a subjetividade é
singular e coletiva. É importante romper com fenômenos
sociais reduzidos a um somatório de comportamentos individuais. Há que se abrir
mão de prerrogativas normativas, nas quais qualquer desvio à regra é
considerado uma anomalia, que deve ser tratada como um problema de saúde, que é
biologicamente determinado. Neste sentido, a subjetividade é tratada como algo
descontextualizado das relações sociais, já que nos impede de compreender que a
criança é um ser transformador e criador de novos sentidos.
Os meios de comunicação estão em nosso dia-a-dia de forma muito
mais presente do que podemos perceber, de forma negativa ou positiva. Positiva
no âmbito da informação que ocorrem ao redor do mundo, difundindo saberes, mas
negativa no que diz respeito à propagação de consumismo para a sociedade.
O consumismo fomenta a ilusão de que cada consumidor é especial e
diferente, mas uma diferença que não produz potencia.
Se a subjetividade se constitui através das experiências do ser
humano, devemos manter constantes diálogos com as crianças, problematizar tudo
aquilo que faz parte da vida. Não é silenciando e escondendo delas determinadas
“coisas das quais não se pode falar” que estaremos evitando que estas sejam
seres melhores. Que são seres em formação, dos princípios do consumismo. Essa é uma tarefa imprescindível para que não
haja a uniformização dos indivíduos. Devemos lembrar sempre, para não nos
esquecermos de que as crianças não são seres que estão por vir a ser os adultos
de amanhã... As crianças já são... Estão aí... E vêem o mundo com olhos
próprios.
Uma coisa é nos mantermos preocupados com a banalização do
pensamento de nossas crianças, elas precisam pôr em prática a criação sem a
interferência da cooptação de forças externas.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
CANELA,
Guilherme. Mídia e Psicologia: produção de subjetividade e coletividade. 2ed. /
Conselho Federal de Psicologia, 2009.
FREIRE, Ermaela Cícera Silva,
FERRIZ, José Luis Sepúlveda, FERRIZ, Adriana Freire Pereira.Mídia,
comportamento e subjetividade: jovens e crianças no fantasioso mundo midiático.
XIV Encontro Latino Americano de Iniciação Científica e X Encontro Latino
Americano de Pós-Graduação – Universidade do Vale do Paraíba. 2011. http://www.inicepg.univap.br/cd/INIC_2010/anais/arquivos/RE_0425_0624_01.pdf
RIBES,
Rita. O (en)canto e o silêncio das sereias: sobre o (não)lugar da
criança na (ciber)cultura. Childhood
& Philosophy, rio de janeiro, v. 9, n. 18, jul-dez. 2013, pp.
267-282. issn 1984-598. http://www.periodicos.proped.pro.br/index.php/childhood/article/view/1607
SILVA, Dagmar de Mello & MARTON, Silmara Lidia. Escutando
crianças: o que elas nos deram a pensar?
Childhood & Philosophy, Rio de Janeiro, v. 10, n. 20, jul-dez. 2014,
pp. 267-282. issn 1984-598. https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0ahUKEwif9t71wb7LAhWJW5AKHYOyApgQFggdMAA&url=http%3A%2F%2Fwww.periodicos.proped.pro.br%2Findex.php%2Fchildhood%2Farticle%2Fdownload%2F1728%2F1340&usg=AFQjCNFHSI980lKFTNGPN8IXQWHiogDzJw
[1]http://www.gramatica.net.br/origem-das-palavras/etimologia-de-educacao/
SUBJETIVIDADE
E SEXUALIDADE FEMININA
Giulia Marques Costa
Historicamente a sexualidade
feminina se constituiu um campo de estudo muito restrito. Além da escassez de abordagens
sobre o tema, em sua maioria, essas abordagens eram baseadas numa visão do
homem sobre a mulher, negando aspectos das subjetividades femininas que seriam
de grande relevância para que não cometessem os equívocos teóricos que em sua
maioria trazem em seu escopo quando abordam sobre o corpo, o desejo e o prazer
da mulher, sem criar espaços de escutas para que ela pudesse falar por si e de
si mesma.
Até mesmo quando Freud em seus estudos de psicanálise criou esse “espaço
de escuta” para que a mulher histérica pudesse fazer falar seu sexo e de certa
forma revelar para a sociedade patriarcal da época sua condição de “vítima das
condições sociais opressivas ou rebeldes, por contestar aquelas condições cujo
comportamento estranho, perturbador, exprimia um sentimento de desconforto
profundo e/ou um protesto contra as limitações de sua situação” (Borossa,
2005), não se deu conta de que tomou como protagonista de suas análises o falo
masculino, concluindo que:
A descoberta da
castração, para Freud, é determinante na menina: seja em direção à neurose,
seja em direção a um problema de complexo de virilidade ou em direção à
sexualidade normal. Determinará também seu afastamento da mãe, pois seu amor
era dirigido a uma mãe fálica, não a uma castrada. Esta descoberta leva a
menina à renúncia da masturbação clitoriana e à atividade fálica; liga-se então
ao pai, primeiro desejando um pênis daquele que o possui; depois se estabelece a
situação edipiana normal, passando a desejar um filho substituto do pênis. No
brincar, a menina brinca de bonecas, identificando-se inicialmente com a mãe
ativa, mas logo esta boneca representa o filho do pai. Depois, a inveja do
pênis é satisfeita pelo nascimento de uma criança, sobretudo se for do sexo
masculino. O complexo de castração, longe de destruir o complexo de Édipo, o mantém.
(SILVA, 2008, pp.3-4)
.
A Sexualidade vai
além de sexo, além da genital e da reprodução, sexualidade diz respeito ao intimo
e pessoal das ligações afetivas. Mas existe um tabu quanto à sexualidade
feminina que faz a mulher se restringir a exercer o papel que é imposto ao seu gênero[1], papel esse que lhe destitui
de sua corporeidade[2]
e sua sexualidade e a coloca como mãe, dona de casa e esposa, para renegar essa
sexualidade, dispondo para isso das instituições sociais tal como igreja,
escola e família.
No processo de
construção das subjetividades, a sociedade ocidental Cristã, buscou argumentos
em seus próprios mitos de origem, para repassar e reafirmar suas ideologias. Adão
e Eva, ainda se fazem presentes no imaginário daqueles que ainda estabelecem o
modelo de homem e mulher que devemos seguir, onde o homem assume o lugar de
dominação, perpetuando esses papeis ideológicos. Porém, esquecem que esse
modelo é contraposto ao mito de Lilith — um relato oposto a essa narrativa da
criação, que diz que Lilith foi a primeira mulher de Adão, criada, como ele, à
imagem e semelhança de Deus. A desarmonia entre os dois culminou com a fuga de
Lilith, para escapar da dominação de Adão, inclusive no plano sexual. Esse mito
simboliza a transgressão da lei, a assunção do desejo e a insubmissão ao homem.
Por não transmitir a ideologia de gênero dominante em nossas sociedades, foi esquecido,
predominando o mito de Adão e Eva, que expressa à dominação masculina e a
inferioridade feminina. O espaço feminino e o masculino, não se constituem por
mundos separados, paralelos e incomunicáveis, mas sim, por uma história de
lutas, confrontos e enfrentamentos, mesmo que nem sempre estivessem declarados.
Os
movimentos feministas, ao trazerem à tona as categorias de gênero para a
discussão, colocaram em questão, padrões patriarcais que durante um bom tempo definiu
o que significa ser “mulher” e o que significa ser “homem” numa dada sociedade.
Muito, embora, nos dias atuais, em alguns grupos sociais, esses papéis ainda
estejam pautados no modelo patriarcal, esses movimentos contribuíram para a
desconstrução de comportamentos que definem os papéis de gênero e tal qual fez Lilith,
a mulher pode mostrar que a relação gênero (dado
social) e até mesmo entre sexos (dado físico-biológico) não estão sob a égide
de uma suposta natureza masculina e
feminina.
Apesar desses avanços,
ainda existem mulheres com dificuldade em se verem como donas de sua
sexualidade, por serem colocadas como objetos de desejo masculino, essas
mulheres se sujeitam a práticas que não aprovam e muitas vezes dolorosas para
garantir a satisfação dos desejos do parceiro, talvez por acreditarem que assim
possam assegurar suas condições materiais de existência ou atém mesmo por ainda
acreditarem numa “suposta natureza da submissão feminina”. Especulações a parte, o
fato é que muitas mulheres chegam ao ponto de aceitar a própria culpa por terem
sido estupradas, diante de argumentos insustentáveis tais como: por não se
vestirem adequadamente e incitarem o estuprador a cometer o ato violento, como
se ele não tivesse controle de seu corpo e fosse natural dar voz a seus instintos
ao estuprar uma mulher. Mulher que é culpada por um ato, não consentido, de
violação do seu corpo e que muitas vezes, acredita nessa culpa e toma a dor para
si, sozinha.
Muito
recentemente, vêm surgindo estudos que visam desconstruir um modelo de
masculinidade hegemônico, na tentativa de romper com a tradicional imagem do
“macho”, porém, esses estudos ainda polarizam a relação entre homens e mulheres.
Essa polarização acaba por ratificar modelos dualistas de conceber a
sexualidade e conforme argumenta Irrarazaval, (2002)[3]: “Uma
sexualidade hegemônica masculina [...] violenta e competitiva; [...] centrada
no pênis [...] é irresponsável”. ( in: MUSSKOPF, 2015).
Nesse sentido
considero imprescindível trazer ao texto um alerta, através das palavras de Maria Rita Kehl (2015) ao tratar dos
avanços das mulheres no século XX, sobre espaços
tradicionalmente masculinos:
[...] as novas
identificações (mesmo que de traços secundários) feitas pelas mulheres em
relação a atributos que até então caracterizavam os homens, não são meros
disfarces: são aquisições que tornaram a(s) identidade(s) feminina(s) mais
rica(s) e mais complexa(s). O que teve, é claro, seu preço em intolerância e
desentendimento – de parte a parte. Aqui tomo emprestado um conceito que Freud
empregou no Mal-Estar…,sem ter se estendido mais sobre ele. Nesse texto Freud
cunhou a expressão “narcisismo das pequenas diferenças” tentando, explicar as
grandes intolerâncias étnicas, raciais e nacionais – sobretudo a que pesava
sobre os judeus na Europa. É quando a diferença é pequena, e não quando é
acentuada, que o outro se torna alvo de intolerância. É quando territórios que
deveriam estar bem apartados se tornam próximos demais, quando as insígnias da
diferença começam a desfocar, que a intolerância é convocada a restabelecer uma
discriminação, no duplo sentido da palavra, sem a qual as identidades ficariam
muito ameaçadas.
Penso que precisamos estar atentos/as a essas intolerâncias,
começando por assumir nossa condição Mulher sem tomar como referencia “seu
oposto”, a condição masculina. Assumir nossa sexualidade sem oposição a
qualquer modelo pode ser o caminho para encontrar, nosso prazer de viver
partindo da visão de si mesmas.
Esta é a utopia que deveríamos
ousar habitar e essa é a utopia que ameaça as ideologias de gênero que tomam
por referencia o masculino (seja por aproximação ou por oposição) — a educação
das novas gerações será aquela que rompe comas raízes de condicionamentos que
predestinam às meninas para a maternidade e os meninos
para a esfera pública e a sociedade terá que admitir e lidar com os vários
desejos, vindos de cada subjetividade, de cada gênero e de cada sexualidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BOROSSA,
Júlia. Conceitos da Psicanálise: Histeria. Rio de Janeiro , Ediouro, 2005.
KEHL, Maria Rita: A mínima diferença.
Entrevista ao Blog da Boitempo. 02/03/2015.http://blogdaboitempo.com.br/2015/03/02/maria-rita-kehl-a-minima-diferenca/ - capturado em: 20/03/2016
MUSSKOPF, André Sidnei. Identidade masculina
e corporeidade: uma abordagem queer. In: MUSSKOPF, André Sidnei & STRÖHER,
Marga J. Corporeidade, etnia e masculinidade: Reflexões do I Congresso
Latino-Americano de Gênero e Religião. São Leopoldo – RS, Editora Sinodal,
2015.
SILVA,
Denise Quaresma, De Freud a Lacan: as idéias sobre a feminilidade e a
sexualidade feminina. Círculo Brasileiro de Psicanálise. 2008. In: http://www.cbp.org.br/rev3107.htm - capturado em: 22/03/2016.
[1]Quando nos referimos aqui à palavra gênero estamos tratando de
um modo específico de entendimento do termo. Refiro-me a uma concepção
reducionista, determinada socialmente por um aparato de regras e padrões de
construção corporal e comportamentos que configurariam uma determinada
identidade social a partir de substratos físico-biológicos, ou seja, masculino
e feminino e que foram estabelecidos como norma. Porém, gostaríamos de
ressaltar que a autora compreende as questões de gênero para além desse
binarismo, contemplando suas múltiplas variantes como androginia, travestismo,
efeminação,masculinização, entre outras possibilidades de existência.
[2]O corpo é a matéria
onde se inscreve os valores de determinadas morais sociais, mas é na corporeidade
que nos encontramos com as múltiplas formas de existência humana, as relações
que as pessoas estabelecem consigo mesmas na relação com o outro. No corpo
estão às marcas físicas seja da sujeição ou da insubmissão, mas é na
corporeidade que se presentifica aquilo que somos ou o que nos tornamos e que
podem estar expressas ou camufladas nas superfícies de nossos corpos.
[3]IRRARAZAVAL, Diego.Felicidad masculina – Una propuesta
ética. Caderno,
Chucuito, Peru, 2002
A CRIANÇA E O
DESENHO
Izabelle Marques
“Todas as artes contribuem para a maior
de todas as artes, a arte de viver.”
(Bertolt Brecht)
O desenho não
foi realizado pela primeira vez na escola, tudo começa na época em que o homem ainda
vivia nas cavernas desenhando nas paredes, os animais e tudo aquilo que experimentava
em seu cotidiano. Portanto, o desenho pré-existe à criação da escola. Esta
observação se faz importante para entendermos que, para além das atividades
pedagógicas, desenhar é uma prática humana que acompanha nosso próprio processo
civilizatório.
Segundo
Martins (2007) a palavra desenho deriva de disegno,
vocábulo italiano cuja origem etimológica está relacionada ao ato de produção
de uma marca, de um signo (de-signo), e principalmente, ao pensamento, ao
desígnio que essa marca pode projetar.
Não se desenha
apenas em uma folha em branco, pois o desenho pode ser feito em qualquer
superfície, desde uma folha em branco até as marcas na areia da praia feitas
com um graveto ou riscos com uma pedra no chão. Desenhamos em tudo aquilo que podemos
deixar uma marca e cada um de nós tem seus próprios modos de deixar marcas. Por meio do desenho, a criança começa a dar asas
a sua criatividade e imaginação e registrá-las como suas próprias marcas.
O desenho é uma
linguagem e através do desenho a criança se expressa, expõe suas emoções e
modos de ver o mundo. Além da expressão corporal, o desenho é um dos principais
meios que a criança dispõe para comunicar seus sentimentos antes de começar a
dominar a fala e a escrita.
Foi durante meu
estágio na Educação Infantil que observei que o desenho era usado pelas crianças
como uma linguagem que expressava seus sentimentos, por meio dele as crianças
nos contava a respeito de seus estados emocionais e até mesmo os seus sentimentos
ocultos, sinalizando que algo estava lhe incomodando ou não estava bem. Portanto,
o desenho nos diz muito sobre a criança, através dele a criança conta suas histórias,
como ela brincou, se socializou e interagiu com o mundo ao seu redor.
Geralmente, ao
nos depararmos com um espaço utilizado anteriormente pela criança, seja
desenhando ou brincando, temos o costume de enxergar aquilo que ela deixou como
"bagunça", mas a “bagunça“ deixada por ela são rastros que podem nos
dar pistas para compreendê-la melhor. Isso serve também, para a sala de artes.
Quando nos deparamos com os pincéis no chão, mesa, cadeira, cobertos de tinta,
ou qualquer outro material que a criança tenha explorado no seu momento criativo.
Devemos entender que aquele foi um momento só dela, momento em que ela interagiu
consigo mesma, com o outro, com o espaço, experimentando, descobrindo e se
descobrindo. Portanto, toda vez em que nos depararmos de frente com o que
criança deixou em determinado espaço, devemos pensar "ela esteve aqui, e
aqui estão rastros de sua história, estão os indícios que podem nos aproximar
de seu universo".
Segundo Cunha
(1999):
Para que as crianças tenham possibilidades de
desenvolverem-se na área expressiva, é imprescindível que o adulto rompa com
seus próprios estereótipos (...) assim, o professor tem que fazer parte do
processo de descoberta da criança, desprezando os estereótipos e abrindo a
mente para novas idéias e novos materiais, não só entendendo, mas vivenciando
as linguagens da arte com a criança.(p. 10)
Nenhuma criança
desenha de forma igual, os traços e voltas, nunca serão os mesmos, a forma de
colorir também nunca será a mesma, não importa a idade, não importa se ela está
na educação infantil ou no ensino fundamental, ela se tornará um adolescente,
adulto, envelhecerá e assim mesmo, continuará não tendo os mesmos traços e
voltas que outra pessoa. Sabe por quê? Porque somos feitos de subjetividade,
por isso, nenhuma criança desenha igual à outra, podemos encontrar semelhanças
entre os desenhos, mas, eles nunca serão produzidos da mesma forma.
O desenho como
linguagem e forma de expressão subjetiva, tem um papel muito importante nos
processos de cognição e compreensão emocional da criança. A criatividade de uma
criança definitivamente não tem limites, nesta fase da vida sua imaginação está
“solta” para que as coisas possam ser o que ela quiser que as coisas sejam. Tal
qual Silva e Maton (2014) nos apontam:
As crianças estão sempre a inventar novas formas
de apropriação das imagens e experiências daquilo que vivenciam. Talvez
possamos afirmar que o modo como exercem o pensamento pode nos ensinar a pensar
o mundo de forma menos fragmentada, como uma tessitura que, tal qual Sherazad,
reinventa a vida em narrativas. Através de histórias abertas, as crianças
rompem com a temporalidade homogênea e vazia das metanarrativas iluminadas pelo
projeto de uma Modernidade que prometeu ao homem a felicidade através da
emancipação de seus dogmas e mitos. Elas nos recordam que o mundo imaginário é
fonte inesgotável de sonhos. (p.269)
Por serem
pequenas e estarem num processo constante de descobertas, e ainda não conseguirem
se expressar tão bem por meio de palavras, as crianças buscam outras
alternativas para “dizerem” sobre aquilo que estão sentindo. Quando a criança
desenha, transforma o que está em sua imaginação, em linguagem comunicativa.
O lúdico está
muito presente no ato de desenhar, contribuindo para que ela se sinta livre
para revelar a forma como enxerga o mundo. Ostetto (2007) diz que "não é
mesmo novidade dizermos que é pelas diferentes experiências com/no mundo
sensível que a criança vai se apropriando de formas mais complexas de ver e ler
esse mesmo mundo sentido."
Além disso, o
desenho como atividade pedagógica, contribui para aspectos físicos e cognitivos
tais como: coordenação motora, visão, movimentos das mãos, organização do
pensamento, construção das noções espaciais entre outros aspectos que contribuirão para sua inserção no processo de escolarização.
Devemos levar em conta o tempo, pois cada uma tem o seu, algumas podem
sentir-se mais a vontade para experimentar, enquanto outras podem ter receio em
segurar nos materiais logo de inicio.
Através da
brincadeira a criança vai construindo sentidos com sua existência na vida e
tomando contato com sua dimensão subjetiva. O desenho varia de acordo com os juízos
que cada criança projeta sobre o mundo, varia com o sentimento de cada criança.
Cada criança sente o mundo e tudo que está ao seu redor de um jeito muito
singular. Para Pillotto (2007), "a imaginação nasce do interesse, do
entusiasmo, da nossa capacidade de nos relacionar. Por isso as instituições
educacionais precisam estar atentas ao currículo, propondo ações voltadas ao
interesse das crianças."
Na hora de
pegar em um lápis, giz, pincel, seja lá qual for o instrumento, a sensação que a
criança terá ao manusear tal instrumento, não será a mesma de outra criança,
cada criança terá a sua própria sensação, cada uma vai sentir a textura do material
do seu jeito e as marcas deixadas por ela vão variar de acordo com os
sentimentos que ela vivencia no ato de desenhar, vai depender do jeito que cada
criança vai formando sua própria visão de mundo, trata-se do modo que ela
expressa seu ponto de vista pessoal.
É incrível como
a arte age no mundo infantil, especialmente no período da educação infantil,
teatro, música, dança, contação de história, faz de conta, pinta dali, pinta
daqui, rasga, corta, recorta, cola, risca, rasbica, e faz tudo outra vez... Podemos dizer que o mundo da arte para a
criança, é um mundo mágico, é movimento, é liberdade, inspiração, expressão,
manifestação e cultura, tem como não gostar de um mundo assim? De um mundo, que
a gente pode brincar, se divertir, e aprender, não só com as cores, formas e
sons, mas com tudo que nos cerca.
Neste período da
vida, as atividades artísticas, criam oportunidades para construirmos nossos
próprios sentidos em relação às coisas que experimentamos. Na arte de desenhar, cada criança cria seus
próprios cenários, seu próprio mundo, nesta ação de fazer, criar, ela entra em
contato o que está ao seu redor. "O que é preciso considerar diante de uma
criança que desenha é aquilo que ela pretende nos contar, mas devemos também
reconhecer, nesta intenção, os múltiplos caminhos dos quais ela se utiliza para
exprimir aos outros a marca dos seus desejos, de seus conflitos e
receios." Widlocheir (1971).
Quando a
criança começa a atribuir sentidos e significados aos seus desenhos ela recria
um mundo próprio. Aquilo que para nós adultos pode ser apenas rabiscos, para
ela pode ser um elefante, pode ser uma árvore que ela viu enquanto passeava, ou
mesmo um sonho acordado. Não cabe a nós julgar o desenho da criança e sim
tentar enxergar e aprender com a poesia que pode estar expressa nas suas
linhas.
Com o tempo, a
criança vai deixando de desenhar de forma espontânea, buscando traços mais
definidos, por conta de crítica e avaliação do adulto, sem falar da escola, que
muitas vezes não deixa a criança ter a liberdade de expressar sua subjetividade
ao desenhar, oferecendo-lhe desenhos prontos para que ela só os pinte de um
determinado modo, impedindo ela crie suas próprias imagens do modo como ela vê.
O "não é
assim que se faz" é muito comum nas escolas, como se cada criança tivesse
que desenhar dentro de um padrão pré-estabelecido, ela deve desenhar a partir
do modo como ela vê, e não como o adulto quer que ela desenhe.
Para entender
melhor uma criança, devemos aprender a observá-la em seu espaço enquanto
brinca, seu desenho é uma linguagem assim como seus gestos ou sua fala, ela desenha
para expressar seus medos, alegrias e tristezas, e também suas descobertas. Por
isso, é fundamental que o educador saiba valorizar o seu desenho.
Todos nós temos
nosso próprio jeito de criar, criamos a partir de como enxergamos o mundo, cada
criança deve ter a liberdade de escolher com que cor vai pintar o sol, o céu e
o coração, talvez uma criança prefira pintar o coração de rosa, a outra ache
melhor deixar o céu branco, em vez de pintar de azul.
O educador não
deve olhar para todos os desenhos da mesma forma, e sim olhar para cada um
deles com um olhar diferente, nenhum desenho é igual ao outro, cada um expõe algo
diferente nos traços. Nosso olhar exige atenção, sutileza e sensibilidade para
observar o que está expresso nas entrelinhas, procurando entender o que a
criança está a nos dizer, pois não se tratam de "rabiscos" trata-se
da obra da criança, que tem um enorme valor para ela, pois foi ela mesma quem fez.
Tudo no desenho é importante, por conta disso, devem ser deixados de lado os
juízos estéticos, o importante é aquilo esse desenho revela.
É muito comum
ouvirmos crianças do ensino fundamental dizerem que não sabem desenhar, isso se
dá, pelo fato da criança ser reprimida ou censurada por exigências estéticas, na
Educação Infantil. Além disso, a arte, muitas vezes é desvalorizada na escola
que prioriza os conteúdos acadêmicos tais como, português e matemática, por
exemplo.
Em nossa sociedade, o artista ainda é visto como um
“excêntrico”, e a arte não é respeitada pelo mercado de trabalho como um profissão
produtiva. Assim a escola preocupa-se em preparar a criança para assumir
profissões que são mais valorizadas. Com isso, a criança vai perdendo os
sentidos antes produzidos com o desenho e vai adormecendo sua dimensão
criadora. Quanto a isso Silva e Marton (2014) alertam que:
[...] há
que se exercitar uma infância não reduzida a um tempo cronológico específico de
uma vida, mas que emerge do interior de cada sujeito, nas possibilidades de sua
condição humana. Nesse sentido, gostaríamos de reafirmar um conceito criado por
Deleuze que vem norteando a proposta teórico/metodológica desse trabalho.
Trata-se do conceito “devir-criança”. O “devir criança” não está relacionado a
concepções historicamente associadas à infância ou a imagem da criança.
Trata-se de pensar a criança como um devir, uma potência criadora que
precipita o novo. Assim, nos apropriamos também do conceito de infância
defendido por Agamben que compreende a infância como condição da existência
humana, e não apenas etapa passageira de um desenvolvimento por vir a ser. (p.280)
Desenhar é para
todas as idades. Despertar a criança que trazemos conosco pode ser o caminho
para lembrarmos os sonhos que dão vazão à criação e que ficaram esquecidos
nesse sono profundo do nosso “devir criança.” Talvez assim, possamos reaprender
a desenhar como expressão de uma liberdade que nos foi despojada pelas demandas
de uma vida adulta. Quanto a isso os desenhos de nossas crianças têm muito a
nos ensinar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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In: Camargo, L. (org). Arte-educação da pré-escola á universidade. São Paulo: Nobel, 1989.
CUNHA, Susana Rangel Vieira da. Pintando,
bordando, rasgando, desenhando e melecando na educação infantil. In: Cor, som e
movimento: a expressão plástica, musical e dramática no cotidiano da criança.
Porto Alegre: Mediação, 1999. p. 07-36.
CUNHA, S.R.V. da (2013). Como vai a arte na
educação infantil? In:RODRIGUES, M. B.C.; DALLA ZEN,
M. I. H. (org). Tópicos Educacionais I. Porto Alegre: Editora da UFRGS .
p. 31-40
MARTINS, Luiz Geraldo
Ferrari. A etimologia da palavra desenho (e design) na sua língua de origem e
em quatro de seus provincianismos: desenho como forma de pensamento e de
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OSTETTO, Luciana Esmeralda. Entre a prosa e a
poesia: fazeres, saberes e conhecimento na educação infantil. In: PILOTTO,
Silva Sell Duarte (org.). Linguagens da arte na infância. Joinvile-SC:
UNIVILLE, 2007. p. 29-45.
OSTETTO, L. E. & LEITE,M. I. Arte,
infância e formação de professores: autoria e trangressão. Campinas-SP:Papirus,
2004.
PILOTTO, Silvia Sell Duarte. As linguagens da
ate no contexto da educação infantil. In: PILOTTO, Silva Sell Duarte (org.).
Linguagens da arte na infância. Joinvile-SC: UNIVILLE, 2007. p. 17-28.
SILVA, Dagmar de Mello & MATON, Silmara
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pensar? Childhood & Philosophy, Rio de Janeiro, v. 10, n. 20, jul-dez. 2014, pp. 267-282. issn 1984-598.
WIDLOCHEIR, D. A interpretação dos
desenhos infantis, Vozes, Petrópolis, Rio de Janeiro,1971. p. 19.
SUBJETIVIDADE,
ALTERIDADE E EDUCAÇÃO: SOBRE A EXPERIÊNCIA ESCOLAR.
Desirée Brito
Mariana
Calache
Compreendemos a
subjetividade como uma característica singular do ser humano, construída
através das experiências com seu mundo circundante.
O termo
subjetividade foi trabalhado por diversos psicólogos e filósofos. Leontiev
(2004) fala que a subjetividade é o que permite a particularidade do ser o que
não quer dizer que ela parte do interior do individuo. A subjetividade é um
intercambio entre o interno e do externo.
Segundo Leontiev (1978/2004), os indivíduos, para se
humanizarem, precisam se apropriar da cultura e dos mediadores culturais
criados pela humanidade. Portanto o homem só se torna homem ao apropriar-se do
mundo, e a constituição da sua subjetividade caminha desse ir e vir do mundo
interno para o mundo externo, numa relação dialética entre objetividade e
subjetividade.(AITA, 2011, p.3)
A inserção do
individuo na escola é um desses encontros do ser humano com “um dos mediadores culturais
criados pela humanidade” (op.cit),
portanto, a entrada e a permanência da criança, nesse contexto, possibilitam
apropriações do mundo que irão fazer parte de sua vida. Este será um
espaço/tempo de maior ou menor intensidade na produção de sua subjetividade,
dependendo dos aspectos qualitativos que cada criança estabelece nessas
relações.
Consideremos a pessoa A, inserida no
contexto escolar de uma escola pública tradicional, cursando o ensino básico regular
cujo regime educativo em questão preza pelo tradicionalismo e pela rigidez no
trato disciplinar. Nesse sentido este estabelecimento de ensino priorizaria o predomínio da razão instrumental valorizando apenas um grupo de matérias especificas
e o mérito do aluno estaria condicionado a um sistema de avaliação pautado em
um produto final, que por sua vez seria ajuizado de forma quantitativa.
A pessoa A, traz
consigo um conjunto de fatores que a impossibilitaram uma experiência escolar
nos moldes que esta instituição lhe oferece, ou seja, A necessitaria de intervenções
(mediações) e adequações pedagógicas direcionadas as suas condições de
aprendizagem e que não lhe foram oferecidas, gerando por todo o seu percurso de
escolarização; insatisfações familiares e da própria escola, em relação a ela, causando-lhe
sofrimento e exclusão.
Através desse
exemplo queremos trazer para o debate a questão da crise da alteridade dentro
do próprio sistema escolar que deveria ter como principio o acolhimento e a
abrangência de suas práticas pedagógicas.
Segundo a enciclopédia Larousse (1998), alteridade é um “Estado,
qualidade daquilo que é outro, distinto (antônimo de Identidade). Conceito da
filosofia e psicologia: relação de oposição entre o sujeito pensante (o eu) e o
objeto pensado (o não eu).”
Ao
tomarmos o pensamento de Levinas, deparamo-nos com a centralidade do sentido
ético e da própria interpelação da alteridade. A tese levinasiana, que coloca a
ética como filosofia primeira, apresenta-se como alternativa ao impasse da
filosofia ante o sentido do ser. Em Totalidade e infinito: ensaio sobre a
exterioridade (1988), Levinas percebe que a prioridade do pensamento ocidental
se configura numa ontologia e numa forma de racionalidade. Ambas se
identificaram com os próprios temas investigados, na procura de estabelecer a
verdade como o ser, vertendo-se, assim, em relações lógicas abstratas e em
formas objetivas fechadas em si mesmas. (SILVA, 2014, p.130)
Se relacionarmos o exemplo dado com o
pensamento de Levinas percebe-se que a escola ao priorizar exclusivamente a
objetividade do raciocínio, excluindo aspectos subjetivos da condição humana,
acaba por igualar a todos, desrespeitando suas singularidades. Para Silva
(2014), essa racionalidade “neutra e abstrata” tornou o ser humano “um ente
entre outros entes, um ser anônimo, impessoal, apreendido pelo sujeito pensante
e expresso num conceito”.
A
corporeidade, a sensibilidade, os desejos, a dinâmica de relação com os outros,
o nascer, o viver, o sofrer, o morrer do humano transformaram-se em conteúdo
objetivado, sintetizado e representado num sentido puramente racional. Em vez
de uma relação teórica abstrata na determinação inteligível do ser, Levinas
priorizou sua busca pelo sentido ético do humano. (Ibid)
Acreditamos na
comunidade escolar como um território plural que deveria ser capaz de
potencializar a formação de todos e não somente de alguns, mas, para que isso
aconteça seria necessário, que suas portas estivessem abertas para a entrada de
outras formas do pensar, formas que contemplassem a corporeidade, a sensibilidade, os desejos, enfim, as múltiplas formas de nos relacionarmos
com o outro.
Mas como um membro
adepto do sistema capitalista, a escola opta pela produção de mecanismos controladores que neutralizam as
subjetividades com a finalidade
de formar mais massa trabalhadora, alienada, em busca de prestigio social e consumismo
desenfreado para movimentar o capital.
Sabemos que no decorrer da vida escolar, a relação professor/aluno é
muito importante para o processo de ensino/aprendizagem. A relação entre
subjetividade e alteridade se mostra muito clara quando percebemos que as
relações entre um corpo docente e os corpos discentes acontecem pelo respeito e
entendimento que estão diante de uma multiplicidade de indivíduos cujas
subjetividades se diferem entre si. O que necessita ser colocado em evidência
nos processos educativos é a alteridade, onde;
[...]
se verifica a possibilidade de uma relação metafísica do mesmo com o outro, sem
que o outro se reduza ao mesmo, nem o mesmo se absorva na identidade do outro,
mantendo, cada um, a condição de separação e a verdadeira relação de
alteridade. (SILVA, 2014, p. 131)
Segundo Fernandez (1991) “para aprender, necessitam-se dois personagens
(ensinante e aprendente) e um vínculo que se estabelece entre ambos”. Entendemos
que esse vínculo entre ambos a que se refere o autor, diz respeito aos
relacionamentos; nossas formas de lidar com problemas em sala de aula, nossas
formas de lidar com as conquistas mas, também, as dificuldades em um mesmo
ambiente, de lidar com a família, sermos cautelosos e não estabelecermos
padrões de aprendizagem.
Muitas vezes ensinantes não
compreendem o tempo de cada aluno, a sua forma de aprender. Isso causa uma
crise de relações que envolvem muitas questões. Isso requer um olhar de
estranhamento que desnaturalize concepções pré-estabelecidas sobre formas
objetivadas de aprender e ensinar.
Cada aluno apreende uma experiência de aprendizagem de um modo muito
próprio. Não dá para estabelecer uma racionalidade comum a todos. É preciso
reconhecer o outro na sua alteridade, posto que seu rosto não é o reflexo de
nossos espelhos.
A
relação ética da alteridade torna-se lugar originário da construção do sentido
e provocação eminente à racionalidade. O rosto do outro apresenta-se como apelo
irrecusável de responsabilidade a ele, que tem como medida a desmedida do
infinito. O rosto não é um ente objetivo que possa ser abordado de modo
especulativo. O rosto “fala” e, ao proferir sua palavra, invoca o interlocutor
a sair de si e a entrar na relação do discurso. A linguagem tem a excelência de
assegurar a relação entre o mesmo e o outro, que é transcendente em absoluto
respeito à sua alteridade. (SILVA, 2014, p. 131)
A relação com o outro, me afeta em muitas dimensões e me desafia. É uma
relação de responsabilidade e a resposta deveria ser a liberdade que se realiza
com ética. Nesse sentido a alteridade é uma abertura e uma possibilidade que
desafia o sujeito (professor ou aluno) a responder a cada nova situação e na
medida do possível às solicitações concretas do outro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AITA, Elis Bertozzi,
&Facci, Marilda Gonçalves Dias. Subjetividade: uma análise pautada na
Psicologia histórico-cultural.Psicologia
em Revista,17(1), 32-47,
2011. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-11682011000100005&lng=pt&tlng=pt. -
Recuperado em 25/03/2016.
LEONTIEV,
A. N. O desenvolvimento do psiquismo.
São Paulo: Centauro. 2004.(Trabalho original publicado em 1978).
SILVA, Alex Sander. Subjetividade,
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Filosofia & Educação, Caxias do Sul, v. 19, n. 1, p. 123-138, jan./abr.
2014.
FERNANDÉZ,
A. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artes Médicas. 1991.
KIECKHOEFEL,
Josiane Cardoso. As Relações afetivas entre professor e aluno. http://www.seer.unirio.br/index.php/alcance/article/ Acesso em: 13 de junho de 2013.
A
OUTRA HISTÓRIA AMERICANA: A GRAVE HERANÇA DO RACISMO NA FORMAÇÃO DA
SUBJETIVIDADE
Conheceremos agora a história de Derek Vinyard, protagonista
do filme “A outra história americana”, um sujeito cuja subjetividade foi atravessada
pela raiva na adolescência, o que lhe trará consequências perigosas no futuro. De
acordo com a interpretação de Molon (2003) aos estudos de Vygotsky, a
subjetividade se constitui por processos psicológicos na relação com contextos sócio-históricos:
“Os modos de determinação social e histórica conformam a constituição do
sujeito e da subjetividade, os quais se transformam juntamente com as
transformações sociais, mas sem desaparecerem nesse processo (...)”.
Molon (2003), ressalta que para Vygotsky, o sujeito: “articula
pensamento/sentimento, cognição/emoção, conhecimento/experiência
apresentando-os como passagens do social ao psicológico e vice-versa, que estão
sempre se fazendo e se constituindo em relação ao outro, portanto, intersubjetividade”.
(p.120)
Perceberemos, dessa forma, como a relação com o outro foi
fundamental no processo de elaboração e reelaboração da subjetividade de Derek.
Para isso, analisaremos quatro passagens fundamentais na vida de nosso personagem:
1) Derek
é um jovem movido pelo ódio.
Desde que seu pai morreu baleado num
bairro negro, ele atribui aos negros e aos imigrantes a causa dos problemas
sociais dos EUA. Em função desse discurso, ele é atraído por Cameron Alexander,
chefe de uma organização nazista de seu bairro, Venice Beach. Gradativamente,
vai se tornando líder para jovens do seu bairro, disseminando ódio entre seus seguidores
com discursos e atitudes racistas e xenófobas.
Quando vê três negros rondando sua
casa e tentando roubar seu carro, Derek exterioriza todo seu rancor e mata dois
deles brutalmente. Assim que a polícia chega, ele se rende: de braços abertos
como um Cristo às avessas, com o olhar transfigurado e com a sensação de dever
cumprido.
2)
Derek agora é um jovem encarcerado
pelo crime que cometeu.
Na cadeia,
ele se mantém aliado ao seu grupo nazista, mas logo percebe que os diversos
segmentos da cadeia se relacionam e negociam entre si: negros, nazistas e
latinos. Para ele, isso é algo inadmissível, mas vai se por à prova como uma
importante estratégia de sobrevivência, como veremos adiante. Por se negar a fazer
parte do jogo, logo é punido por seus companheiros, que o violentam
sexualmente.
3) Derek
é um jovem que se libertou na cadeia.
No ambulatório, ele se recupera da
agressão e é visitado por Bob Sweeney, professor negro de sua antiga escola. A
humilhação por que passou funciona como agente desencadeador de sua
transformação. “Sofrer para compreender”, como escreveu Ésquilo na tragédia
Oréstia, considerando o sofrimento fonte de sabedoria.
Derek aprendeu com o sofrimento e com
o outro. Sweeney demonstrou empatia[1]
pelo ex-aluno ao dar-lhe apoio. Afirmou que já estivera naquele lugar (a
prisão) por ter ficado muito irritado em algum momento do passado e que não
conseguia respostas para sua irritação porque sempre fazia as perguntas erradas.
O professor concluiu, então, que a
pergunta a ser feita é: “Alguma coisa do que fez tornou sua vida melhor?” Derek
responde balançando a cabeça negativamente e chora pedindo ajuda.
A pergunta foi fundamental para a
compreensão de Derek acerca de suas atitudes e de seus sentimentos, ou seja, um
processo fundamental de autoconhecimento que ocasionará sua transformação:
“Conhece-te a ti mesmo”, como nos ensinam os gregos há milênios.
Além disso, Derek é um sujeito
inteligente, com apreço pela leitura. Sabe, no fundo, que algo sempre esteve
errado em toda essa ideologia que se sustenta apenas no ódio cego às diferenças,
sem a análise dos fatores que causam e muitas vezes as mantém. Sabe que é
necessário não só redirecionar seu olhar, mas modificar o modo de olhar. E como
isso acontece? Para Foucault (2004), é através do pensamento, essa capacidade
que possui “um caráter essencial na vida humana e nas relações humanas”:
É preciso se liberar da sacralização do social como
única instância do real e parar de considerar rapidamente esta coisa
essencial na vida humana e nas relações humanas, quero dizer, o pensamento. O
pensamento existe além ou aquém dos sistemas ou edifícios de discurso. É
algo que se esconde frequentemente, mas anima sempre os comportamentos
cotidianos. Há sempre um pouco de pensamento mesmo nas instituições mais
tolas, há sempre pensamento mesmo nos hábitos mudos. A crítica consiste em
caçar esse pensamento e ensaiar a mudança: mostrar que as coisas não são tão
evidentes quanto se crê, fazer de forma que isso que se aceita como vigente em
si, não o seja mais em si.(p.10)
E é aí que se estabelece a mudança.
Nos meses seguintes, Derek está sempre na expectativa de ser atacado novamente,
o que não acontece, graças ao amigo negro Lamont. A presença de duas pessoas
negras como parte constitutiva no processo de ruptura de Derek com seu passado
nazista foi emblemática ao desconstruir o paradigma da supremacia racial em que
ele acreditava. Lamont foi enfático nos primeiros contatos com Derek, que o
ignorava veementemente: “É melhor se cuidar, porque, na prisão, você é o negro,
não eu.”
Esse conselho fez com que Derek
compreendesse sua posição num novo mundo, em que tem que representar o papel
daquelas pessoas que eram o alvo de seu desprezo: as minorias. Lamont se
mostrou aberto ao diálogo desde o início, rompendo a barreira da
incomunicabilidade imposta por Derek, que tentava a todo custo ignorar o
parceiro com quem dividia o trabalho de cuidar dos lençóis e das cuecas da
cadeia. Derek viu em Lamont uma pessoa bem-humorada, franca e simples e acabou
se rendendo ao companheirismo oferecido por quem anteriormente representaria o
alvo de sua hostilidade cega. Esse contato mais próximo possibilitou a Derek conhecer
alguém que antes apenas supunha saber como era, e essa suposição conservava
muitos equívocos. Citando Cameron Alexander, o militante nazista ilustrou bem
essa suposição: “Não conhecemos e não queremos conhecer. Eles são o inimigo.”
Foi um negro que garantiu que Derek
não fosse mais perseguido na cadeia e foi com um negro que passava momentos descontraídos.
Reconhecer o outro implica reelaborar a subjetividade em si e também nesse
outro, já que nesse processo há uma dinâmica que “se constitui na teia de
relações entre sujeitos diferentes e semelhantes”, como afirmou Molon (2003,
p.118). De acordo com ela, Vygotsky entende que a construção do sujeito “acontece
no confronto eu-outro das relações sociais, considerando que viver a realidade
social não é nem um evento circunstancial e nem um episódio ocasional, mas é o
modo de ser do sujeito nas relações sociais.” (ibid.)
Esses acontecimentos – a decepção com
os militantes nazistas, a violência que sofreu, a amizade com Lamont, a
conversa iluminadora com Sweeney – todos foram responsáveis pela libertação de
Derek ao ódio que sentia. Isso gerou uma questão paradoxal: foi necessário ser
preso para encontrar a liberdade. Esse processo ocorrido em Derek mostra como
os seres humanos são seres incompletos, com inúmeras possibilidades de transformação
em sua subjetividade. A princípio, a subjetividade de Derek estava voltada para
o ódio transfigurado em ideologia nazista; com a passagem pela cadeia, essa
subjetividade começou a ser transformada por sentimentos de empatia.
4) Derek
é um homem transformado.
No dia em que
sai da cadeia mediante liberdade condicional, Derek já é uma nova pessoa. Sua
transformação não se dá apenas no nível psicológico, mas também físico, pois não
se apresenta mais com a aparência neonazista: seu cabelo já não está raspado e
já não usa seus pesados coturnos. Além disso, se envergonha da suástica tatuada
em seu peito, que vai lhe servir por um bom tempo como uma marca inequívoca do
seu passado. Afinal, não há possibilidade de se retirar de sua constituição as
atitudes reprováveis que cometeu: disseminação do ódio, preconceito racial, xenofobia
e assassinato.
No entanto, o
que mais preocupa Derek é o quanto seu passado influenciou Danny, seu irmão
mais novo. Derek não quer que seu irmão também tenha sua vida consumida pela
violência e intolerância e tenta dissuadi-lo de se manter no grupo de Cameron.
Mas se desvencilhar não será fácil para nenhum dos dois. Uma vez que se entra
num círculo cultivado pela intolerância, ódio e violência, a saída se mostra
difícil de acontecer de forma pacífica. Derek rompe com seus antigos
companheiros de uma forma tão violenta que eles são hospitalizados. Mas este
não é o maior problema que ele deve enfrentar. Ele relata ao seu irmão como foi
a passagem na cadeia e ambos relembram os comentários e situações racistas do
pai que ajudaram a formar a personalidade intolerante deles.
Num momento de
catarse[2],
os irmãos retiram os cartazes, flâmulas e bandeiras nazistas do quarto de
Danny. Derek se sente aliviado. Além de se salvar, era preciso salvar sua
família, sobretudo seu irmão. E Danny compreende com lucidez os eventos que
levaram à prisão de Derek e está disposto a se desvencilhar desta vida. Mas já
é tarde. Num desfecho trágico, Danny é assassinado na escola por um desafeto
negro, mostrando que ainda que se queira sair de situações extremadas como o fascismo,
as engrenagens que o sustentam não são fáceis de serem desfeitas.
FICHA TÉCNICA DO FILME:
Título original: American
History X
Título no Brasil: A Outra
História Americana
Gênero: Drama/policial
Direção: Tony Kaye
Roteiro: David McKenna
Ano de lançamento: 1998
País de origem: EUA
Duração: 119 minutos
Classificação: 18 anos
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
FOUCAULT, Michel. Por
uma Vida Não-Fascista. Coletivo Sabotagem: 2004.
FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário Aurélio da Língua
Portuguesa. Curitiba: Editora Positivo, 2009, 4ª edição.
MOLON, Susana Inês. Subjetividade
e Constituição do Sujeito em Vygotsky. Petrópolis: Vozes, 2003.