sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Algumas notas sobre o aprender...
Já está incorporado ao senso-comum a celebre frase “recordar é viver” esta expressão me faz lembrar algo que li sobre memória e experiência... Algo que falava sobre a importância de fazer emergir as vozes de nossas lembranças não apenas como um texto que se reproduz, mas como algo que nos foi apresentado um dia e que é (re) significado na experiência subjetiva de quem vive...
Dotamos essas recordações (re – tomar novamente, cordis – coração) de sentidos que passam a fazer parte de nosso próprio mundo, nos afirmando como agentes capazes de transformar o significado daquelas experiências, ao examinar criticamente os pressupostos sobre os quais elas foram construídas.
Pois, é em minha memória e em minha própria experiência que vou buscar as lembranças de discussões realizadas em sala de aula como quem retoma o vivido para dar meus próprios sentidos as construções ali forjadas, transformando-as em experiências que ao serem compartilhadas possam desdobrar-se em novos sentidos e significados...
Essas considerações me trazem a memória algo lido em Umberto Eco e sua “Obra Aberta” que dizia mais menos assim... Um texto é um mecanismo preguiçoso (...) que vem da valorização do sentido que o destinatário ali introduziu... Ou ainda: Todo texto quer que alguém o ajude a funcionar...
Ao tecer essas considerações Eco me dá a pensar, que um texto não se constitui apenas de palavras inscritas e grafadas numa folha de papel em branco. Sob a materialidade do texto tecem-se relações que por mais que o autor tente controlar e direcionar os significados que lhe deseja imprimir nunca terá domínio dos sentidos que se desdobram em cada leitor que o experimenta.
Nesta perspectiva o texto não só assume novos sentidos no ato da leitura como vai ganhando novos significados a cada recordação em que é evocado, pois o destinatário atualiza-o incorporando às suas próprias experiências que estão inseridas na temporalidade vivida.
Sob esta estética me reporto às discussões sobre aprendizagem que foram evocadas em algumas de minhas aulas. Discussões onde foram levantadas questões referentes aos processos de aprendizagens e que suscitaram dúvidas quanto: O que é aprendizagem? Como se aprende? Como se deve ensinar?...
Todas estas questões me conduzem a uma outra que tanto nos inquietou: Podemos ter respostas definitivas para essas questões?
Se pensarmos nas teorias da Psicologia da Aprendizagem, evidenciaremos que estas derivam de dois referenciais teóricos que por sua vez vão influenciar nossos procedimentos metodológicos em sala de aula já que refletem nossa própria concepção de sujeito e, portanto, nossa paxis docente cotidiana.
Eis então que nos deparamos com estes dois pilares que sustentam as bases de uma multiplicidade de teorias que tentam responder as nossas perguntas aqui explicitadas: as concepções comportamentalistas e as cognitivistas.
As teorias da aprendizagem que se definiram a partir de pressupostos comportamentais enfatizam as condições ambientais como forças propulsoras da aprendizagem. Assim a aprendizagem constituiria uma conexão entre estímulo e resposta onde estes estariam de tal forma, imbricados que o aparecimento do primeiro evocaria a resposta do segundo.
Quanto às teorias cognitivistas[1], estas definem a aprendizagem como um processo de relação do sujeito com o mundo externo o que reflete no plano da organização interna do conhecimento (organização cognitiva) Lembro aqui um dos teóricos desta abordagem: Ausubel, que ao articular o conceito de aprendizagem significativa define aprendizagem sob o princípio de comunicação com o mundo que se acumula sob a forma de conteúdos cognitivos - processo de organização de informações e integração do material pela estrutura cognitiva. Desta forma o “indivíduo adquire um número crescente de novas ações como forma de inserção em seu meio”.
Numa análise comparativa podemos destacar alguns pontos de controvérsia entre essas duas concepções. A primeira se refere à questão do que é aprendido e como é aprendido.
Para os teóricos comportamentalistas aprendemos hábitos associando o estímulo (S) a uma resposta (R); aprendemos praticando. Já para os cognitivistas aprendemos a relação entre idéias (conceitos), abstraindo de nossas experiências.
Um outro ponto de divergência está direcionado a manutenção do conteúdo aprendido. Numa abordagem comportamental este se mantém pelo seqüenciamento de respostas, ou melhor, conjunto de respostas reforçadas (bem sucedidas) que preparam para uma outra etapa de aprendizagem ou generalização das respostas anteriormente aprendidas para novas respostas, enquanto os teóricos cognitivistas defendem que o comportamento se mantém por processos mentais como: atenção, memória, motivação, etc.
Uma terceira controvérsia está relacionada ao fato de como resolvemos uma situação-problema (transferência de aprendizagem). Os comportamentalistas nos respondem que evocamos hábitos passados e os apropriamos para o novo problema respondendo de acordo com o que esse problema tem em comum àqueles já aprendidos.
Na contramão deste ponto de vista, os cognitivistas argumentam que mesmo no caso da existência de uma experiência próxima às anteriormente vivenciadas isto não garante a solução do problema se este for apresentado de uma forma, mas não de outra diferente daquela a que fomos habituados. Mesmo que se recorra a uma experiência passada, a apreensão e solução de uma situação nova se dá numa dimensão da estrutura perceptual que leva ao insight – compreensão interna das relações essenciais do problema em questão.
Enfim... Mas uma vez nos vemos diante de teorias e conceitos que tentam explicar a complexidade do ato de aprender concebendo-a pela via de transmissão/aquisição de informações/conhecimentos e que se articula a uma concepção naturalizada de linguagem, como código transparente e neutro, representação das coisas esquecendo-se do caráter polissêmico que esta assume para além de sua função comunicativa, uma concepção que não leva em conta também a dimensão do sentido, do acontecimento, da subjetividade.
Por esses percursos, entendo que como uma “Obra Aberta”, conforme sugere o título de Humberto Eco, os processos de ensino aprendizagem se constituam antes por processos criadores, do que reprodução de hábitos e adequação associativa de experiências pré-concebidas.
Espero que este possa ser o início de uma caminhada que nos permita pensar e fazer escolhas críticas em direção a uma prática mais includente em nossas salas de aula. Práticas que contemplem as vozes que estão vivas, mas, muitas vezes, permanecem amortecidas por conta de relações de autoritarismo e intolerância que emudecem os sujeitos impedidos de participar autônoma e coletivamente, construindo novos e significativos textos de vida.
Assim, deixo-os a pensar com Deleuze: [2]
Nunca se sabe como uma pessoa aprende: mas de qualquer forma que aprenda, é sempre por intermédio de signos, perdendo tempo, e não pela assimilação de conteúdos objetivos. Quem sabe como um estudante pode tornar-se repentinamente 'bom em latim', que signos (amorosos ou até inconfessáveis) lhe serviram de aprendizado? Nunca aprendemos alguma coisa nos dicionários que nossos professores e nossos pais nos emprestam. O signo implica em si a heterogeneidade como relação
Aos meus alunos com carinho
Dagmar
[1] Cognição: processo através do qual o mundo se significados tem origem. Na medida em que o ser vai se situando no mundo, estabelece relações de significação atribuindo significados a sua realidade que por sua vez dará origem a estrutura cognitiva (primeiros significados), pontos de ancoragem para a construção de novos significados..
[2] DELEUZE, G. Proust e os signos. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1987.
