quarta-feira, 25 de agosto de 2010

RUÍNA

por manoel de BARROS



Um monge descabelado me disse no caminho: eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado pro arcaíco ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.)



Continuou: a palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como um lírio pode nascer de um montouro*.



E o monge se calou descabelado.

2 comentários:

  1. Pensamento interessante...
    As vezes é preciso descostruir e destruir muitas coisas, para surgir coisas novas e boas... Não sei se intendi, mas penso que seja isso ao meu primeiro ver...
    ;D
    A constante reflexão no fluxo da vida, não garante uma vida de certezas mas provavelmente uma vida vivida...

    Abraços!

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  2. Concordo com você Diego...
    Talvez por entender que “O caráter destrutivo” emerge do esquecimento da mesmice, da recusa de faces que reificam uma identidade própria ou apropriada, da negação a justeza das coisas produzindo justo as coisas que rejuvenescem, da linha contínua que se quer quebrada, do tempo contínuo que se quer partido, dos espaços ocupados que se pretendem invadidos. Das totalidades que se quer em estilhaços, que se separam, se juntam, mexendo e remexendo as formas únicas das coisas transformando-as em pluralidade de coisas. Das igualdades que produzem diferenças e diferentes que desejam misturar-se produzindo semelhanças, dos
    territórios demarcados desmarcando lugares, repovoando-os com modos outros de existência, da tradição que se quer na contradição, enfim do acontecimento qual novo início, nova juventude ou mesmo um lírio nascido em um montouro

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